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7 Assis, o anão que sabe o que diz

Camila Vaz

Se os olhos são a janela da alma, Leonora Franklin era dona da alma mais verde de toda Funilândia. O lugarejo fica a alguns quilômetros da capital do Paraná, mas isso não importa. O importante é que Leonora era conhecida como Esperança. Acho que nem sua mãe a chamava pelo nome de batismo.

Era dona de uma beleza rara e um tanto exótica, afinal, não é muito comum uma mulata de olhos verdes e um e noventa e cinco passeando na feira, mas o povo já tinha se acostumado com tanto tamanho numa mulher só e, além disso, seu sorriso era porta de entrada para gargalhadas sem fim. Se ficava nervosa, gargalhava; triste, então, gargalhava horas sem parar e não parava nem para beber água. Uma figura dessas que talvez ninguém tenha conhecido.

O apelido de Esperança não veio apenas por conta dos seus olhos verdes, mas também pela mágica que desenvolvia dentro da sua cozinha. Bastava uma notícia sobre algum doente que ela ia correndo fabricar o milagre: pequenas pílulas de pão de ló que muitos poderiam considerar apenas placebo, mas, não se sabe por quê, curavam de calvície crônica a câncer avançado.

Criada para ser dona de casa, tinha o segundo grau e seus dias eram vividos entre os afazeres domésticos, a TV e o rádio, onde aprendia novas receitas e ficava por dentro das fofocas. Além do suposto poder de cura, Esperança tinha fobias e segredinhos inimagináveis que só mesmo sua psicóloga sabia, quer dizer, sua psicóloga e eu, que só estou contando o que me foi contado: nada além da possível verdade. Minha mãe sempre dizia: “Quem conta um conto aumenta um ponto”, mas isso também não é novidade para ninguém, é apenas um ditado popular antigo.

Como eu soube dos segredinhos? Poderia criar outro segredo não contando, mas acho interessante revelar agora para que haja credibilidade. Sou amiga da psicóloga. Esperança não aguentou sentir tudo aquilo e foi procurar ajuda. Minha amiga não aguentou e me contou tudo aquilo. E eu, como não conheço a Esperança nem Funilândia, resolvi contar para todo mundo e foda-se.

Ela não é uma psicóloga muito experiente nem muito boa, mas era o que tinha em Funilândia. Formou-se em tempo recorde pela Unifast (Universidade rápida de psicologia) e em apenas um ano e meio já tinha os diplomas de graduação e pós-graduação nas mãos, o que lhe garantiu um emprego na prefeitura, já que foi a única a prestar o concurso. Mas isso não é importante, é apenas um detalhe engraçadinho que eu adoro contar porque no fundo acho um absurdo ela ser tão burra e ter um emprego público.

Características físicas da Benigna? Feia! Mas com uma autoestima invejável. Fofoqueira estilo Nelson Rubens com Leão Lobo, conta tudo o que é dito no consultório. Maligna! Por causa dela, parei de ir à terapia. Fiquei com medo de a minha terapeuta contar minhas histórias na mesa de um bar, se quem conta um conto já aumenta um ponto, imagine bêbada.

Desconfio que Benigna seja lésbica, já peguei ela olhando para os meus peitos mais de uma vez. Meus peitos são suspeitos porque não há quem não olhe. Sabemos que mulher sempre repara no corpo da outra, mas ela exagera.  Cansa de perguntar se não tenho curiosidade de sair com uma mulher. E eu canso de responder: “Se essa mulher for você, de jeito nenhum”. Ela ri. Graças a Deus, a conversa sempre para por aí.

Uma coisa não posso negar: mesmo estando longe de ser a melhor psicóloga do mundo, Benigna consegue acalmar Esperança com frases roubadas do Paulo Coelho e de alguns livros de autoajuda. Já me peguei várias vezes pensando sobre a vida da tal mulata linda de olhos verdes e tudo piorou quando soube de suas fobias. Nunca imaginei que alguém pudesse sofrer tanto com coisas tão bizarras.

Confesso que me identifiquei, às avessas, com uma fobia que aparentemente até parece boba perto das outras, a hamartografofobia. Hamartografofobia? Nem eu nem a própria Benigna tínhamos ouvido falar nisso. A fobia é tão absurda que quem deu o nome foi a Esperança, a própria hamartografófoba. Medo de gente que escreve errado. Esse medo eu não tenho, oras, se tivesse, teria medo de mim mesma, sou disléxica.

Hipopotomonstrosesquipedaliofobia: medo de palavras grandes. Imediatamente gritei sozinha: Inconstitucionalissimamente! Nada aconteceu, não senti nada. Para garantir que tudo estava bem comigo, arrematei com otorrinolaringologista. Ufa! Até aqui sou normal.

Deipnofobia: medo de jantar com a família. Pode parecer piada, mas, dependendo da família, não dá medo, dá pânico. Todas as vezes que vou jantar com as minhas tias, rezo para que elas não perguntem por que ainda estou solteira. De nada adianta rezar, antes mesmo de dar boa noite, lá vem a mesma pergunta chata e sem resposta.

Lachanofobia: Medo de vegetais. Não pude deixar de imaginar cenouras e pepinos tarados correndo atrás de uma mulata de um e noventa e cinco. Nunca mais comi uma cenoura normalmente e tive certeza de que alguns pepinos realmente dão medo. Dessa fobia eu jamais sofrerei, não costumo fugir do perigo, ainda mais tratando-se de pepinos.

Nanofobia: medo de anão. Como alguém pode ter medo de uma pessoinha pequena e feliz? Não conheço muitos anões, na verdade eu só conheço um, mais ele me parece tão feliz que eu jamais teria medo dele. A curiosidade é que segundo a Benigna, Esperança não conhece nenhum anão. Não existe nenhum anão em Funilândia. Então, como ela sabe que tem medo? Pasmem, senhoras e senhores, ela vê na TV, grita e muda o canal. Se os irmãos Grimm tivessem nanofobia, provavelmente a Branca de Neve estaria perdida na floresta até agora. E a historia não teria a menor graça sem aquelas pessoinhas fofas e bondosas. Ouvi dizer que algumas pessoas se curam de fobias se confrontando com o medo. Até pensei em sugerir para Benigna contratar um anão segurando um pepino, falando inconstitucionalissimamente, em um jantar de família, mas qualquer um teria medo ao se confrontar com uma cena dessas.

Não conheço Esperança, nada tenho a ver com sua vida, nem sei dizer se é verdade o que Benigna me conta, mas a vontade de ajudá-la não me sai da cabeça. Eu não moro tão longe, nunca fui a Funilândia. De carro, deve demorar uma hora e meia no máximo. Talvez eu pudesse marcar um café com a Benigna e assim aproveitar para conhecer essa tal mulher cheia de medos. Pensei em conversar com Assis, um amigo que foi candidato a vereador com o slogan de campanha: “Assis, o anão que sabe o que diz!” (Tiririca deixou um legado). Ele não ganhou, mas tenho a impressão de que ele sabe muito mais do que diz. Sinto que tenho que fazer alguma coisa. Eu vou. Chego de surpresa ou ligo antes? Ligo antes. Deselegante chegar assim do nada, odeio quando as pessoas batem na minha porta sem avisar.

 

Eu: Alô, Benigna querida, tudo bem?

Benigna: Olá, que surpresa! Você me ligando? É sempre o contrário. Eu sempre ligo para desabafar minhas coisinhas. A que devo a honra ?

Eu: pensei em dar um pulinho em Funilândia para conhecer a cidade e te fazer uma visita. Tomar um café…

Benigna: Acho ótimo! Passa o fim de semana comigo, vamos ao karaokê juntas, é bem divertido.

Eu: Maravilha. Combinado, então. Sexta à noite estou por ai, me manda seu endereço por sms?

Benigna: Nem precisa, aqui todo mundo se conhece, mas eu mando sim.

Eu: Ok. Beijos querida! Tô na ansiedade.

Benigna: Vai ser maravilhoso. Beijos, te aguardo, amada.

 

O primeiro passo foi dado. Pelo que percebi, não vai ser difícil achar a tal Esperança. Será que convido o Assis? Melhor ficar amiga da moça primeiro. Imagina chegar lá acoplada a um anão, fodeu, melhor não. Por que me meter nessa bobagem? Nem psicóloga eu sou. O que posso fazer? Apresentar um anão a uma mulher de um e noventa e cinco com nanofobia?

Passei três dias na maior ansiedade esperando a sexta-feira, parecia que eu teria um grande encontro, talvez fosse mesmo, afinal, iria conhecer a tão falada dona dos medos que eu nem imaginava que existiam.

Não foi difícil achar a casa da Benigna, bastou entrar na cidade, pedir uma informação e, em alguns minutos, estava no meu destino. Ela já estava pronta para o Karaokê e na maior empolgação. Um detalhe importante que me irrita profundamente: ela só usa roupa rosa de viscose. Ai, que agonia ver aquela mulher toda de rosa dos pés à cabeça achando que isso é ser feminina. Várias vezes já pensei em inscrever a Benigna nesses programas que ensinam a pessoa a se vestir melhor e jogam todo o seu guarda-roupa no lixo, mas morro de medo de que alguma mendiga digna use aquelas roupas. Lá fui eu com a brega empolgada para o martírio. Nada pode ser pior que karaokê de cidade do interior. Uma fila absurda para cantar, você passa a noite cantando a música dos outros, bebendo uma cerveja quente e rezando para que nenhum gay simpático resolva fazer uma homenagem à diva Whitney Houston. O final é sempre previsível, acabamos todos amigos em um grande coro cantando Evidências.

Assim que entramos, acho que avistei Esperança. Só podia ser ela. Nossa, que mulher linda! Estava às gargalhadas em uma mesa com 2 amigas. Nunca diria que essa moça tem tantos problemas. Aliás, estou começando a desconfiar que nem tudo que Benigna me contou seja verdade. Impressionante como os homens olham para ela. Não é um olhar de querer, de desejo, é uma coisa quase que fraternal, de gratidão. Deve ser por conta das tais curas que ela faz pela cidade, ou então porque geralmente o povo do interior não tem maldade, sei lá.

 

Eu: Aquela é a Esperança de que você me fala tanto?

Benigna: É ela mesma, percebeu como ela gargalha?

Eu: Sim, é porque está nervosa?

Benigna: Ou feliz, ou triste, nunca soube distinguir. Não tem diferença.

Eu: Me apresenta a ela?

Benigna: Eu não costumo falar com os meus pacientes fora do consultório. Cumprimento, sou simpática, mas não estabeleço relação de amizade. A cidade é muito pequena.

Eu: Se eu for lá sozinha pega mal?

Benigna: Não, sei lá, mas por que você quer tanto conhecer ela?

Eu: Curiosidade. Você fala tanto dela…

Benigna: Você não acha que eu estou mentindo, né? E nem vai comentar nada com ela, vai?

Eu: Claro que não! É só curiosidade mesmo. É como se ela fosse um personagem que estou vendo na minha frente.

Benigna: Você que sabe. Talvez seja até uma boa você ir lá para entender o que eu te falo.

Eu: Então deixa aparecer uma oportunidade que eu vou.

 

Levantei para pedir uma cerveja no balcão e, para minha surpresa, não estava tão quente. Achei melhor circular um pouco para sentir o clima e criar uma oportunidade, mas ela só gargalhava. Voltei à mesa, onde Benigna já tinha a apostila das músicas nas mãos, munida de papel e caneta. Entrei na brincadeira e escolhi apenas 2 músicas, aquilo bastava para passar a noite toda. De repente, Esperança é chamada para a próxima canção. Escolheu Chico. Benigna me disse que Esperança é apaixonada por poesias e rimas, das mais pobres às mais complexas, e eu nem tinha me dado conta desse detalhe tão importante. Seria muito mais fácil do que eu pensei: Assis, o anão que sabe o que diz, há anos não fala uma frase sem rima. Consegue na mesma frase rimar chulé e sacolé, olé com Nescafé, canto e espanto e outras pérolas. Ele também procurou terapia e ouviu do simpático médico: “Isso, além de não te atrapalhar na vida, ainda te ajuda no trabalho, certo? Então não tem problema falar tudo rimado. E é até engraçado.” Desconfio que esse terapeuta também cursou a Unifast.

Minha vez. Também escolhi Chico, tentando uma aproximação. Assim que comecei, Esperança levantou para cantar junto. Alcancei o outro microfone e, em poucos segundos, estava formada a melhor dupla da noite. Fomos ovacionadas. Benigna não gostou, estava começando desconfiar que minha intenção não era passar o fim de semana com ela. Disfarcei, cantamos uma música juntas, sentamos e citei uma frase roubada do Paulo Coelho. Pensei: “Será que ela vai perceber que estou usando o seu lado maligno?” Óbvio que não. Ela se acalmou também. E assim, passei a noite dividida entre a Esperança e a brega empolgada. Acabamos todos juntos em grande coro cantando Evidências. Eu sabia que isso iria acontecer, mas foi mais emocionante do que pensava.

Dormi na casa da Benigna, mas me dei ao trabalho de levar um pijama bem fechado, mesmo sendo verão, assim ela não poderia manjar meus peitos. Convidou para dormir com ela, disse que era mais confortável. Agradeci, mas preferi o sofá-cama de napa. Demorei a pegar no sono. Não parava de pensar no possível encontro de Assis e Esperança. Percebi que Benigna também levantou várias vezes para beber água. Parecia homem que recebe a amiga da irmã para dormir em casa. Eu me fiz de morta, não quero ter certeza de nada. Aproveitei o desconforto para levantar bem cedo e explorar a cidade sozinha e a pé. Achei uma padaria super charmosa, dessas que tem doces caseiros mais gostosos do que os da Vó. Tomei um café da manhã digno de hotel 5 estrelas, minha intenção não era comer de me lambuzar, como acabou acontecendo, e sim fazer hora para tentar encontrar Esperança sóbria e fugir das investidas da Benigna.

Quase meio dia e nada, melhor andar um pouco pela praça. Bastou uma pequena volta e lá vem Esperança sozinha e gargalhando. Estou com sorte. Será que vai me reconhecer? Nem deu tempo para dúvida.

 

Esperança: Querida! Que ótimo te encontrar!

Eu: Olá, bom dia. Que bom te ver também, Adorei nossa dupla de cantoras perfeitas ontem. Acho até que poderíamos mudar de profissão e ficarmos ricas.

Esperança: Para mim, não seria difícil, já que não tenho nenhuma profissão.

Eu: Para mim, talvez não fosse nenhum transtorno também (rezando para que ela não me pergunte em que eu trabalho, odiaria ter que explicar que atualmente sou concurseira e sonho com um cargo público).

Esperança: Você trabalha em quê? Nunca te vi pela cidade… Veio visitar alguém?

Eu: Sim, vim visitar uma amiga de infância, ela se mudou para cá por causa do trabalho.

Esperança: Ah, sim, a Benigna?

Eu: Ela mesma. Desde que ela se mudou para cá, nunca vim visitá-la. Esse fim de semana, criei vergonha na cara e vim. Não imaginava que seria tão divertido.

Esperança: Eu adoro a Benigna, ela é minha psicóloga.

Eu: Jura?! Nunca iria imaginar.

Esperança: Ué, como não? Ela é a única psicóloga da cidade.

Eu: Isso eu sei, nunca iria imaginar que você precisa ir a uma psicóloga.

Esperança: Não imagino minha vida sem ela e suas frases milagrosas.

Eu: Benigna é bem parecida com um amigo querido que também sempre sabe o que diz.

Esperança: É amigo ou namorado?

Eu: Imagina, é um amigo mesmo, eu não conseguiria namorar alguém como o Assis.

Esperança: Por quê? Ele é muito feio? É muito velho? Burro?

Eu: Ele é muito poeta, isso sim, não tenho paciência para homens muito românticos.

Esperança: Poeta? Solteiro?

Eu: Sim, é difícil para ele arrumar uma namorada.

Esperança: Agora fiquei curiosa. Difícil por quê?

Eu: Por quê? Ué… porque… parece que as mulheres pensam como eu.

Esperança: É bonito?

Eu: Sim, muito bonito. Branco de olhos escuros, exatamente o contrário de você, mas tão lindo quanto.

Esperança: Obrigada pelo elogio. Aqui o povo diz que sou exótica. Há anos que duvido da minha beleza.

Eu: Eles já estão acostumados a te ver todos os dias. Vai ver que é por isso que esse elogio já não cabe mais.

Esperança: Fiquei feliz em saber que você tem um amigo interessante e solteiro, acho que gostaria de conhecê-lo.

Eu: Acho que ele também. Por que não fazemos o seguinte então: me passa o seu telefone, eu falo com ele sobre você e ele te liga, pode ser? O que acha?

Esperança: Será? O que eu tenho a perder, né? Aqui nessa cidade acho que não arrumo nada mesmo.

Eu: Posso perguntar uma coisa?

Esperança: Claro!

Eu: Por que você fala gargalhando? Achei curioso.

Esperança: Eu também não sei, estou trabalhando isso com a Benigna, se descobrir te conto.

Eu: Bom, vou indo. Adorei o papinho e adorei conhecê-la.

Esperança: E hoje, karaokê?

Eu: Não vai dar, preciso mesmo voltar. Vim só fazer uma visita de médico, mas quem sabe eu não volto com o Assis?

Esperança: Assim espero. Foi um prazer.

 

Voltei caminhando para a casa da Benigna traçando um novo plano, já que até então tudo estava dando mais certo do que esperava. Esperança já sabia da existência do Assis, poeta e romântico, só não sabia que ele não era nem tão poeta e nem tão romântico, mas isso é só um detalhe, não se pode ter tudo. O principal era fazer a Esperança se apaixonar pelo Assis antes de saber que ele é anão. Isso seria bem difícil. Mas estou tão empenhada nisso como estou em passar em um concurso publico, se fosse preciso dividiria o tempo em 8 horas aos estudos e 8 horas para Assis e Esperança. Essa seria minha contribuição para um mundo melhor. Juntar dois seres tão adversos e, ao mesmo tempo, feitos um para outro. Não tenho tanta certeza sobre o “feitos um para o outro”, mas isso será um desafio para nós três.

Quando voltei, a Benigna não estava em casa. Deixou um bilhete carinhoso avisando que tinha saído para comprar ingredientes para nosso almoço especial. Era minha deixa, afinal, já tinha resolvido tudo o que queria e não precisava acabar de destruir minha coluna no sofá-cama de napa, nem correr o risco de um possível almoço romântico com uma amiga de infância. Fiz um bilhete tão carinhoso quanto o dela, me desculpando por não poder ficar, me dei ao trabalho de escrever pelo menos duas frases de efeito do Paulo Coelho. Gostei de ser maligna sem querer.

Voltei para minha cidade em menos de uma hora, talvez até tenha tomado uma multa por alta velocidade, mas a ansiedade em encontrar o Assis era tanta que sou capaz de pagar essa muita gargalhando como a Esperança, sem saber se é bom ou ruim. Corri para o mercado onde o Assis trabalha. Ele é locutor, desses que anunciam os produtos em promoção.

Esqueci de contar uns detalhes sobre o Assis que importam ou não para a história: ele é o anão de voz mais grave do estado do Paraná. Tem um metro e trinta e sete centímetros e meio., ou seja, entre os anões, é considerado até bem alto. Tem 6 irmãos enormes, é o único anão da família. Pratica hipismo diariamente para manter a postura e parecer sempre elegante. Além de outras coisas que de fato não importam para a historia. Importante dizer que eu não menti para a Esperança, o Assis é um gatão. Quer dizer, gatinho. Dizem que tem um mega pauzão, mas isso já faz parte das lendas que rodeiam os anões. Uma vez, vi um filme pornô com um anão que me impressionou tanto que me fez tentar olhar o Assis com outros olhos, mas quando entrei no mercado e ouvi ele anunciar o Omo Dupla Ação por “quadro nofe nofe, que era o sabão ideal para lavar o roupa do bofe”, desisti. É bem difícil ter um diálogo com o Assis, sempre dá vontade de rir com suas rimas, parece que pega na gente.

Entrei no mercado e fui seguindo a oferta. Dei sorte: ele estava saindo para o lanche, o que me deixou confusa, por não saber como abordar o assunto. Precisaria dizer que eu tinha achado a mulher da sua vida, cujo único defeito era ter nanofobia? E se eu não falasse nada, será que ele diria a ela pelo telefone que é anão? Não tive tempo para pensar.

 

Eu: Olá, Assis, tudo bem?

Assis: Olá querida, que bom que me pegou de saída.

Eu: Pois é, quero te contar uma coisa que talvez possa te interessar.

Assis: Então vamos lá, estou aqui para te escutar e tentar agradar.

Eu: Conheci uma mulher incrível!

Assis: Quer dizer que você gosta de mulher? Se deixar, come até de colher?

Eu: Não, Assis, eu conheci uma mulher incrível para você!

Assis: Como assim? Ela serve mesmo para mim?

Eu: Acho que sim, ela é linda. Mulata de olhos verdes.

Assis: Ela é alta? Você disse que sou pouco maior que uma ribalta?

Eu: Então Assis, esse é o problema. Melhor eu contar logo de uma vez. Não se assusta, não pergunta e me ouve.

Assis: Beleza, sou todo ouvidos para sua franqueza.

Eu: O Nome dela é Esperança, ela mora em Funilândia e é linda. Tem um e noventa e cinco de altura, olhos verdes e é cheia de fobias. A mais grave é medo de anão.

Assis: Estou ouvindo com atenção, mas não entendi essa porra não.

Eu: Calma, ela também adora poetas e qualquer tipo de rima.

Assis: Se isso é real, sou o cara ideal.

Eu: Então o grande lance é ela se apaixonar sem saber que você é anão. Quando vocês se conhecerem, ela já vai estar tão apaixonada que vai te aceitar.

Assis: Se você acha que vale a pena, eu pago para ver a cena.

Eu: Então, vamos nessa, eu vou te contar tudo que eu sei sobre ela e depois é com você no telefone.

Assis: Vou voltar ao trabalho, te espero à noite para uma pizza de alho.

Eu: Pizza de alho? Assis!! Desde quando você faz pizza de alho, confessa que esse alho foi só para rimar com trabalho.

Assis: Eu queria rimar com caralho, mas, como você sabe, eu não sou indelicado, no fundo estou mais para biscoitinho amanteigado.

Eu: E bem abobalhado… Beijos.

 

De noite, contei o que sabia sobre a Esperança. Dei o telefone dela para ele e pronto, ficou combinado que ele também a queria e faria aquela mulher se apaixonar de qualquer jeito.

Prometi a mim mesma que ficaria uma semana sem pensar nisso e sem perguntar nada. Caso a Benigna ligasse para me contar coisas, eu daria uma desculpa. Agora é com eles. Estou saindo de cena. Está dada minha contribuição, tenho que estudar. Preciso passar em um concurso público, sou muito mais inteligente que a Benigna e não posso ficar desempregada.

Uma semana depois, ligo para o Assis para saber como andam as coisas e ele me conta que está super apaixonado e morrendo de medo que ela não o queira. Ligo para a Benigna para saber o que pensa a Esperança. E tomo um susto: Esperança apareceu na segunda, disse que está apaixonada e que tudo mudou. E se deu alta. Agradeceu pelo tratamento e sumiu.

Meu Deus, o que eu fiz? E se Esperança não aceitar o Assis? E se ela gritar loucamente? E se adquirir outra fobia qualquer? Melhor acabar logo com isso. Liguei novamente para o Assis e o encorajei a encontrá-la. Ele, no desespero, topou. Me ofereci para levá-lo, se ele tivesse que voltar chorando, dirigir era o mínimo que eu poderia fazer. Ele então ligou para Esperança. Tudo combinado, sexta na karaokê. Achei ótimo, quanto mais cheio, melhor, ela não sairia gritando apavorada na frente dos outros.

Chegou a sexta e eu estava em pânico. Assis então nunca rimou tanto. Chegamos a Funilândia em 2 horas, fui o mais devagar que pude. Paramos na porta do Karookê. Assis travou e não queria entrar. Ela ainda não havia chegado. Entramos e escolhemos uma mesa bem no fundo. Em minutos, acabaria o sofrimento. Distrai-lo com a apostila de músicas, óbvio, foi em vão. Pedi uma cerveja e ele bebeu o primeiro copo de uma vez. Levantei para fumar e ver se Esperança apontava no fim da praça. Lá vinha ela. Mais linda que nunca. Corri para avisar ao Assis. Ele pediu uma tequila e virou num gole só. Olhei para ele e disse: “Ela vai gostar de você, ninguém rima tão bem assim. Eu nunca errei. Vocês nasceram um para o outro, confia em mim”. Esperança entrou e bateu os olhos no Assis, acho que nem me viu. Foi andando séria em direção a ele. Eu nunca tinha visto Esperança séria. Pensei: Acho que agora fodeu.” Ela, em nenhum momento, olhou para os lados. Chegou à mesa, esperou ele levantar, o que ele não ousou fazer, mas ela perceber o seu tamanho. Então ela sentou, se apresentou e começou a gargalhar. Ufa! Não sei o que ela sentiu, mas acho que está normal. Levantei para deixar os dois sozinhos. Eles nem perceberam. Passaram a noite ali: ele rimando e ela gargalhando. Para minha surpresa, Benigna apareceu no meio da madrugada e não estava só. Chegou com uma amiga com peitos absolutamente mais suspeitos que os meus. Esperei uma oportunidade para falar com Esperança. Queria saber se a paixão superou o medo. Ela levantou para ir ao banheiro. Não pisquei, fui atrás. Quando entrei, fui logo perguntando:

 

Eu: E então, o que você achou do meu amigo? Ele é tudo que eu disse, não é?

Esperança (às gargalhadas): Não, ele é muito mais.

Eu: Você sabe que ele é anão, né?

Esperança: Sim, e juntos chegamos a uma conclusão: não poderíamos ser mais perfeitos. Se pensarmos que a Esperança é a ultima que morre e que nunca ninguém viu um enterro de anão, temos tudo para sermos felizes para sempre.

Juntas, gargalhamos.

 

E assim, Esperança se casou com Assis. No cardápio, muitos vegetais, toda a família à mesa, coberta por toalhas com palavras gigantes bordadas. E como padrinhos, o primo que escreve errado e eu, a disléxica que conseguiu escrever esta historia. Tiveram três filhos: um anão, um mediano e um gigantão. Ah! Devo confessar que se eu libertei Esperança, ela me libertou muito mais. Passei no concurso público em Funilândia e hoje sou chefe da Benigna, que é minha mulher e eu, no fundo, no fundo, nunca achei ela nem tão brega nem tão feia assim.

 

 

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Assis, o anão que sabe o que diz Copyright © by Camila Vaz. All Rights Reserved.

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1 Response to Assis, o anão que sabe o que diz

  1. Camila on 8 de November de 2013 at 15:17 says:

    a) 3o. parágrafo
    – linha 1 e 2: verde está no singular e tem que ir para o plural.
    – linha 6: “por que” deve ser acentuado( o certo é “por quê”).

    b) 8o. parágrafo – linha 4: tirar o “Ela” antes de “cansa”. O período começa com o verbo.

    c) no parágrafo que começa com “Não foi difícil achar a casa”
    – linha 3: trocar “Benigna” por “Ela”
    – linha 9: guarda roupa está sem hífen. colocar o hífen.

    d) no diálogo que começa com: “Esperança: Querida!”
    – fala 2: escrever “que” entre “até” e “poderíamos”.
    – fala 8: trocar “nunca vim visita-lá” por “nunca vim visitá-la”
    – fala 17: trocar “Porque?” por ” Por quê?”
    – fala 27: riscar “não sei por que, mas”. O período deve começar em “Fiquei…”
    – fala 32: trocar “Porque” por “Por que”.

    e) no parágrafo que começa com “Voltei caminhando”, linha 4: trocar “nem tão poeta e não tão” por “nem tão poeta e nem tão”

    f) no parágrafo que começa com “*Quando voltei”, remover o asterisco”.
    no mesmo parágrafo, linha 8: colocar uma vírgula depois de “ficar”.

    g) no parágrafo que começa com “Esqueci de contar”, linha 2: inserir “a” entre “para” e “história”

    h) no parágrafo que começa com “Uma semana depois”, linha 4: substituir “E Tomo” por “E tomo”, “Tomo” não começa com maiúscula.

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