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4 Atávica

Silvio Essinger

Ela saiu batendo a porta e ele ficou lá, atento e atônito, só ouvindo. Ruído de elevador, passos apressados na portaria e o que restou foi o som rotineiro de uma manhã de segunda-feira. Cada segundo transcorrido aumentava a tortura, parecia haver um locutor que berrava em sua cabeça: O relógio marca! O relógio marca! A contagem entrava pelos dez minutos quando, com um aperto no peito, ele enfim se convenceu de que ela não ia voltar. Não, pelo menos, naquele dia.

Ora, ora, se não era algo novo em sua vida! Em outros tempos, bastava esperar cinco minutos que ela entrava pela porta, com a conversa de que era a última vez, de que ia dar mais outra chance. Ainda bem que ele nunca se acostumara àquilo. Havia uma certeza de que, cedo ou tarde, por mais que se esforçasse para minimizar seus defeitos — que eram cada vez mais numerosos, segundo ela informava a cada vez que brigavam –, o dia ia chegar. O que fazer, então, diante do inevitável? Ir à padaria para um café com pão na chapa. Era o sol a convidá-lo.

A madrugada fora particularmente tumultuosa. Novas acusações, velhas mágoas, expelidas em torrente. Quem abriu a torneira? Não importa. Gritos, lágrimas e assim as horas se passaram. Exaustos os dois, lá pelas cinco, ela concordou com uma trégua. Sono ou simplesmente um desmaio? Às oito em ponto, ao se levantarem da cama (que tinha um fosso cada dia mais profundo no meio), ela se mostrava resolvida. Sequer esperou o café, ritual sagrado mesmo nas manhãs mais azedas, para vestir calça, camisa, sapato, colar e partir em rumo ignorado.

Mastigando um pão na chapa com gosto de asfalto, ele pensava no que poderia ter feito de diferente, algo que evitasse o cataclisma. Mas, para chegar a uma resposta minimamente satisfatória, ele teria que voltar a um tempo muito distante. Tão distante que nem parecia real.

Conheceram-se na faculdade. Aula de Filosofia, e ele cultivava uma curiosidade, quase interesse carnal, por aquele baixinha de ancas largas, cabelos pretos e franja meio fora de moda, que falava sem parar do Jon Bon Jovi. Alto e bem mais magro do que naquela segunda-feira fatídica (também não entremos no detalhe dos fios que embranqueceram ou abandonaram em massa a sua cabeça desde então), o rapaz era quieto e, gostar, gostava mesmo era do Botafogo. Música era assunto do seu irmão mais velho, um sujeito que se poderia definir como metaleiro brabo, e que andava levando a sério demais uns livros de pensadores ocultistas.

Em resumo: não havia razão para que ele e ela estabelecessem qualquer tipo de relação que não a do cordial desprezo. Mas aí chegou o dia da apresentação oral de um trabalho. Na flor dos seus 20 anos e ainda sem saber o que estava fazendo na faculdade, ele agiu como de costume: pagou a alguém para que escrevesse qualquer coisa e, alguns dias antes, ensaiou na frente do espelho o que ia dizer. Dadas a timidez e a total falta de envolvimento com o texto, a forma mais fácil de se sair bem era encenar uma caricatura do pai, um jurista empolado. Sim, ele tentou o quanto pôde amar o velho, mas um dia o pote derramou e ele optou por fingir respeito.

Em sua avaliação, a apresentação foi um sucesso: o professor adorou e os colegas não precisaram interromper o que estavam fazendo para ouvi-lo. A surpresa foi a baixinha, que pousou os olhos sobre ele e não arredou pé. Nada acostumado ao assédio feminino, o moço ficou assustado com os nem sempre dissimulados convites para que fizessem algo juntos. Chope, cinema, até jogo de vôlei, esporte que ele não chegava a abominar, mas, sabe lá… Num churrasco, para o qual foi arrastado com a promessa de uma pelada, ela jogou todas as fichas: atenção, cerveja (que, olha só, era boa para descontrair!) e a visão de pedaços escondidos do seu corpo.

Começaram a namorar. Faziam tudo o que os casais apaixonados da faculdade faziam, e ele, mesmo sem muita convicção no coração, achava aquilo ótimo. Havia o sexo, bom até quando era ruim. Havia uma vida social, determinada por ela, que ele inicialmente considerou muito divertida. Todas aquelas pessoas que jamais lhe dirigiriam a palavra, de repente, estavam ali a ouvi-lo discorrer sobre a conquista do Conmebol, em 1993, pelo Botafogo, depois de um longo jejum de títulos. Era o time do Perivaldo, não aquele baiano dos anos setenta, mas um outro, gaúcho — ele explicava, pacientemente, extraindo ahs! de admiração da plateia.

Até o pai começou a tratá-lo melhor depois do início do namoro. “E eu, que temia pela sua orientação sexual, meu caro…”, disse, em tom de deboche, num almoço em que ela, por sorte, não estava. O que deveria enchê-lo de revolta, naquela quase felicidade, resultava em puro orgulho. Restava a dúvida: o que teria feito um sujeito simplório como ele para conquistar aquela mulher e o direito àquilo tudo? A resposta demorou alguns meses, e veio como inconfidência após uma tarde de amor: “Sabe? Você me ganhou naquele ‘atávica’. Eu não resisto a essas palavras difíceis!”

Ele se lembrava de ter pronunciado o vocábulo na apresentação do trabalho de Filosofia. Com preguiça, ou convencido da inutilidade de consultar um dicionário, decidira-se a inventar um sentido qualquer para o termo, durante um dos ensaios do texto. Daí o fato de, na hora H, ter saído aquele “atávica” cheio de inadvertida sensualidade. A descoberta do segredo do Don Juan acidental não afetou sua disposição a seguir com o namoro. Ele estudava muito e estagiava num escritório. A convivência mais estreita se dava nos fins de semana, nas viagens, nas férias. Um ano e pouco se passaram nesse doce balanço.

Um dia, ele não consegue lembrar quando, iniciaram-se as sutis pressões para que se casassem. Dela, certamente, que se formara e vira as amigas desfilarem, semana após semana, em vestidos de noiva espetaculares. Ele, no mesmo terno de sempre, nem estranhava o fato de estar comparecendo a tantas cerimônias iguais. A champanhe era sempre boa, dançava-se a noite toda e depois era só cair na cama. Aquilo não era com ele. Mas era, e a conta chegou rápido: sem que ele soubesse, os planos estavam sendo traçados e chegaram às suas mãos em forma de documento, com orçamento, opções de pagamento e ilustrações descritivas. Era pegar e continuar feliz até a morte. Ou largar, e nunca mais ter alguém para ouvi-lo falar do Perivaldo.

Por via das dúvidas e das dívidas, ele se consultou com a família. O pai se prontificou a dividir os custos da cerimônia com os do lado de lá e ainda prometeu bancar a viagem de lua de mel. Uma generosidade da qual certamente iria se gabar com os amigos juízes no joguinho de cartas da semana. A mãe perguntou se ele se realmente amava aquela moça, pois se amasse, teria a sua benção. O irmão, na fase mais anti-religiosa da vida, quase teve um treco. “E na igreja! Depois, dizem que eu é que tenho um pacto com o demo! Deixar-se amarrar a uma mulher deliberadamente é o caminho mais curto para esse inferno que os cristãos tanto temem”, disse o primogênito. Ele chegou a ponderar, mas deixou para lá.

Nos dias que antecederam ao casamento, a baixinha falastrona revelou a ele uma outra faceta: a de adorável tirana. Para conseguir vestido, flores, bolo, bufê, damas de honra, carro de luxo, fotos, alianças, padre e convidados do jeito que desejava, ela despejou, bem na sua frente, uma imensidão de frases imperativas, duras. Rudes mesmo. Algumas até, admitiria (com a desculpa de ser noiva), descontroladas. Ainda bem que nenhuma contra o noivo tão amado. Ele até achou alguma graça. E chegou ao mais próximo de amar aquela guerreira.

No dia D, foi aquele conto de fadas pelo qual todos (ele, nem tanto) esperavam. Passou bem rápido, assim como a lua de mel, a viagem para Bariloche (acabou não rolando a prometida Europa) e a volta para casa, um apartamento num prediozinho velho, mas charmoso, que conseguiram alugar. Daí em diante, eram só os dois. E aqui termina o flashback, porque a história a seguir só confirmou os prognósticos que ele preferira ignorar. Do momento em que cruzou a porta com a baixinha nos braços, nada mais havia a fazer. Além de torcer pelo Botafogo, claro.

 

***

 

Quarta-feira. Da semana seguinte. E nada de notícias. Mesmo absorvido pelo trabalho, achou tempo e ligou para umas amigas dela, que se limitaram a aconselhar que deixasse a poeira baixar. Àquela altura, a falta que ela fazia podia ser dividida em três departamentos. Um era o da administradora que sabia exatamente o que cobrar da diarista em sua visita semanal. Naquela quarta, a prestativa senhora voltara ao apartamento e, pela segunda vez, não a vira por lá — mas, discreta, não perguntara nada. Nem precisava: em sua expressão constrangida, dava para ver toda a pena por aquele sujeito abandonado em definitivo à própria inabilidade nos assuntos domésticos. O outro departamento a fazer falta era o da locomotiva social. Sem a mulher para tirá-lo de casa, ele se descobriu um ermitão, quase um — qual era aquela palavra que teve que decorar em um trabalho? — misantropo! Os amigos, enfim, eram todos dela. E o terceiro departamento era o que mais lhe provocava dor: o da criatura que ainda conseguia expressar algum afeto entre uma e outra tempestade. Lembrou-se dos momentos em que, por qualquer motivo, ficavam de mãos dadas e teve uma vontade surda de chorar. Diante do fracasso em racionalizar aquele sentimento, viu-se diante da única opção: procurar a família, seu porto seguro.

A mãe estranhou a ligação no meio da semana. O que houve, meu filho? As palavras se atropelaram na tentativa de descrever, com alguma dignidade e objetividade, o que tinha acontecido. Mas o pressentimento bastou, aquela era uma notícia esperada há algum tempo. O que se poderia fazer, não é, filho? Seu pai, se não estivesse naquele estado, é que iria ficar muito triste. Sim, o pai. O tempo do casamento coincidiu com o da descoberta e avanço de uma doença mental degenerativa. Teria sido toda aquela animosidade contra ele (e, mais ainda, contra o irmão rebelde) um sintoma? Ele não acreditava nisso: o velho era ruim mesmo, ponto.

Achou melhor fazer uma visita, aquela que tanto adiara. Pai e mãe moravam no mesmo velho apartamento, com a empregada de mais de 40 anos de casa, obrigada a usar um uniforme puído. Logo que entrou, deu-se conta de que a imponência das estantes de madeira escura cheias de livros de Direito nunca tinha sido tão ameaçadora. Começou a se arrepender de ter ido lá. As memórias afetivas da infância esmaeciam quando confrontadas com aquele mausoléu, onde os raios de sol faziam curva para não entrar. Surpreendeu-se ao ver a passagem do tempo repentinamente estampada em sulcos no rosto da mãe, que viera recebê-lo. O pai não estava nada bem, avisou, antes de entrarem na sala de TV, refúgio do jurista demente.

Até que tinha se preparado, mas o que viu estava muito além do que esperara. O pai de pijamas, cabelos revoltos e completamente grisalhos. Há muito abandonara a tintura acaju e andava negligenciando a lâmina de barbear, o desodorante e o sabonete. O olhar fixo na tela não se desviava por nada. Alô? Nenhuma resposta. O silêncio por baixo do barulho da TV o forçara a lembrar-se da última conversa/discussão que tiveram. Foi no dia em que o pote derramou. O pai estava muito errado. Mas ele próprio, pensando bem, não estava lá muito certo. “Todo mundo, em algum ponto da vida, vai encontrar o seu demônio”, alertou o pai. Mesmo na sua ira represada, achou graça: aquilo mais parecia conversa do irmão.

Filho da puta! Berrou o pai, subitamente, ferindo a tarde modorrenta. O alvo era o apresentador mauriçola de um desses programas de auditório. O contato com o mundo ultimamente se limitava aos impropérios que proferia para as figuras da TV, a mãe bem que avisara. Um “piraaaaaanha!”, assim, bem prolongado, com perdigoto, foi destinado, alguns minutos depois, para uma assistente de palco em trajes sumários. Não demorou muito, e um “pederaaaasta!” passou zunindo por um desses cantores de sucesso, pai de família e tudo, que se sacodia no ritmo da canção. O velho não era fácil! A alienação trazia junto uma carga de fragilidade que nunca o filho esperara ver associada àquela fortaleza de moralidade de outrora. Deixava-o mais humano. A absorção nesse pensamento durou mais alguns minutos, até que ele deu como encerrada a visita. Era tentador esperar pelos xingamentos da novela, mas era hora de ir.

Ao sair com o carro da garagem do velho prédio, a imagem do irmão veio num flash. Há alguns anos se falavam apenas por e-mail. O fervor sacrílego que o mais velho cultivava nos tempos de guitarrista de banda de rock pauleira (uma dessas que não deram em nada na época, e que depois foi citada em enciclopédias como sendo “pioneira do black metal”, seja lá o que isso signifique), no fim das contas, era o primeiro indício de uma profunda inquietação espiritual. Ele devia ter uns 12 anos quando o irmão foi preso, revirando sepulturas num cemitério. Adorava ser chamado de “profanador de tumbas” e vivia apavorando o caçula com propostas bem convincentes de missas negras, rituais de sacrifício, orgias sangrentas e demais agitos.

Mas chegou uma hora em que a coisa ficou realmente sinistra. Há quem jure que o irmão encontrou o diabo, mas num sentido bem menos metafórico do que o pai preconizara. Em pessoa, o capeta teria chegado e aberto, bem na sua frente, um portal para o inferno, com chamas eternas, gritos lancinantes, fedor de enxofre, choro e ranger de dentes. Há quem descredencie essa visão, alegando dose excessiva das substâncias estupefacientes que aquele projeto de satanista ingeria com regularidade na época. Ele tendia a acreditar na segunda opção.

O fato é que, após o misterioso evento, o irmão virou outra pessoa. Voltou-se para o lado da luz, viajou pelos quatro cantos do mundo, fez pactos que não revelou a ninguém e virou uma espécie de guru, internacionalmente conhecido por suas tiradas curtas e fabulescas, compiladas entre filosofias místicas das mais diversas procedências — era o que ele tinha decorado das críticas dos jornais. Porque ler livros do irmão, ele nunca lera. E não porque fossem do irmão. Nunca lera um livro, qualquer que fosse, em toda a sua vida. A faculdade fora toda cursada (por ordem do pai, claro) na base dos trabalhos escritos por outros e de muita cola nas provas. Uma fraude, bem se poderia dizer de sua nada brilhante vida acadêmica. Já os livros do irmão, esses bem que poderiam ser geniais. Mas não era ele que iria avaliá-los.

O que importava era que o irmão o tinha abandonado. E à mãe, e ao pai (bom, a este, com um bocado de razão). Foi viver a sua história e deixou ali, ao diabo dará, aquela família em decomposição. Ele gostaria muito de ter partilhado com seu confidente de infância as agruras que enfrentava no casamento, as incertezas acerca do amor. Como se fosse um daqueles leitores que sempre se dirigiam ao escritor com intimidade, em seu site. Queria falar olho-no-olho com o irmão, os e-mails não eram o bastante — e as suas respostas vinham sempre padronizadas, como se ele fosse… um daqueles leitores! Naquele momento, em que dirigia rumo ao apartamento vazio, o miserável se sentia mais solitário (ou vice-versa) do que nunca.

Naquele bode tremendo, nem percebeu quando, num cruzamento, um carro desgovernado veio com tudo para atingir o seu. Um instante congelado no tempo. Vidro quebrado e aço retorcido num turbilhão de máquina de lavar. Um barulho de fazer cagar nas calças. Jogado para não sabe onde, metros e metros de asfalto. E aí o silêncio, fumaça. Recobrada a percepção em sua completude, ele viu com terror o seu automóvel, orgulho da indústria automobilística coreana, partido ao meio, um pedaço para cada lado. O outro motorista devia estar morto. E ele… ele se levantou devagar, apalpando aqui e ali, até descobrir que não tinha qualquer ferimento grave. Uns arranhões, se muito. Cambaleou um pouco para fora da cena e ficou esperando socorro. Sim, estava bem, precisou repetir várias vezes. Exames posteriores comprovaram que era verdade. À polícia, deu os depoimentos de praxe — fora tão vítima quanto aquele pobre homem que perdera o controle do carro (cabo do freio partido, depois se descobrira). Liberado? Obrigado.

Foi para casa a pé, debaixo de chuva fina, entre mil conjecturas e a desconfiança de que só seguia vivo por puro milagre. Tentava entender o sentido daquilo tudo. Saiu do elevador, abriu a porta, correu para o quarto e se jogou na cama. O corpo, posição fetal, ameaçava entrar em colapso. Quis urrar, chorar, vomitar, se masturbar, tudo ao mesmo tempo. Quem é que pregava aquela peça nele? O que seria de sua vida dali para frente, depois de sentir na carne que tudo estava — como sempre esteve — por um fio? Queria parar de pensar e, simplesmente, deixar-se apagar. Sabia, por intuição, que quando acordasse do sono profundo, outra pessoa estaria no seu lugar.

 

***

 

Da última vez em que subira num ônibus, a entrada era na porta de trás. Havia muito o que reaprender. Porque, nem por um caralho (e muito menos por um caralho), ele ia entrar novamente em um carro ou em qualquer cápsula de metal com aquelas dimensões. Um carro, após um impacto como o da noite anterior, poderia muito bem virar uma maçaroca do tamanho de uma gaveta do IML, onde aquele outro motorista provavelmente estava naquela hora. Com custo, abriu a janela do ônibus na esperança de que o vento, produzido em abundância na passagem por uma via expressa, afastasse o mal-estar. Afrouxara a gravata e começava a se embriagar do oxigênio misturado à poluição, quando uma visão o fez desgarrar-se de qualquer outro pensamento.

Era só uma menina, sentada alguns bancos à frente. Uns treze anos, no máximo. Não exatamente bonita. Pequena, meio gordinha… Não, gordinha, não! Compacta. Com seios que despontavam redondos, volumosos, mas contidos à força pela roupa. Cabelos pretos, longos, amarrados num coque. Rosto sardento, um nariz que se poderia dizer grande, mas cheio de personalidade. Brincos de argola, lábios finos. Calça jeans, tênis e camisa de time de futebol europeu. Fonezinhos atochados nos ouvidos, com toda certeza tocando algo que ele nunca ouvira (e era muito difícil para ele imaginar que música seria — se é que era música). Um mistério vital.

Involuntariamente, adotou uma postura ereta (algo que a fugitiva vivia cobrando dele em outros tempos), encolheu a barriga e deu uma espiadela no próprio reflexo na janela. Quem era aquela pessoa? Que rosto era aquele? Que vida era aquela que tinha transformado o simpático garoto peladeiro em um trapo de meia-idade? Mas, peraí! Ele ainda tinha a seu favor o porte (ainda que eternamente desengonçado), os ombros largos e outros atributos que físicos que não convinha propagandear. Mas, que diabos, aquela era uma menina de treze anos! Ele se censurou ao pensar no estrago, caso deixasse aquele trem de pensamento seguir seu rumo. Recordou-se da beleza do amor platônico, vivido com tanta frequência na infância, e achou nessa possibilidade a solução temporária para lidar com o inesperado frêmito de paixão.

A menina acionou a parada e se encaminhou para a porta de saída. No susto, ele deixou cair a pasta e quase desabou do banco. Recuperou-se a tempo de saltar no mesmo ponto que a pequena. Inicialmente, analisou seu andar cheio de decisão e energia, mas ainda infantil. Uma mulherzinha ou uma meninona? Desavergonhado, seguiu a criatura pelas ruas arborizadas de um bairro residencial. Sabia bem o que a lei reservava para degenerados como ele, mas desde o acidente, alguns princípios que norteavam sua vida simplesmente caducaram. Ele, que nunca havia lido “Lolita”, nem desconfiava. Mas se infiltraria na vida da menor e se tornaria uma espécie de tutor (ideia que começou a ruminar, achando-se um gênio perverso, ainda durante a perseguição), mas isso era algo muito velho. Ele ainda matutava naquilo, quando a sua razão de viver interrompeu a trajetória numa portaria, e o prédio a engoliu.

Rapunzel, joga as tranças! Não havia noção de ridículo que pudesse afastá-lo daquela obsessão indecente. Passaram-se o quê? Dez, quinze, vinte minutos? Foi acordado de seu sonho proibido por um dedo que lhe cutucava as costas. Perdido pela área, colega? Olha se não era o… Germano! Um dos poucos caras legais que ele conhecera na faculdade. Abraços fraternos, perguntas pelos conhecidos, e ali ficaram eles, na calçada, a bater papo. O Germano já namorava a Florência na época em que ele e a baixinha se conheceram. Casaram-se os dois também e foram viver, ora, bem ali, no prédio que engolira sua princesa. Filhos? Nós temos uma filha, a * (deixemos o deleite do nome somente para ele). Deduziu de imediato de quem se tratava. Não quis perguntar idade, nada mais. Suspirou, sem disfarçar. Quer almoçar conosco? A Florência vai adorar rever você!

Se ele soubesse como ia ser fácil entrar naquele castelo, nem teria desejado aquilo. A cada andar que o elevador vencia, aumentava a sua vontade de voltar atrás. Tarde demais. Germano abriu a porta de casa e lá estava Florência. Os dois se olharam e ficaram se investigando. Ele, tentando reconhecer os traços de * naquela mulher ainda bela, mas de ar cansado, como se os anos de casamento e maternidade tivessem roubado algo que ela nunca mais ia reaver. Florência, com certeza, viu nele algo de familiar, e depois de preencher a calva com algum cabelo imaginário, chamou-o pelo nome, com entusiasmo. Algo tinha reacendido. Ele ficou apatetado mas feliz com aquele reencontro insólito, como tudo naqueles últimos dias. Por um instante, esqueceu-se de *.

Germano chamou pela filha, que, do quarto, resmungou algo, com uma voz esganiçada que, para ele, não combinava com aquele rosto que idolatrara no ônibus e então revia nos porta-retratos. Florência ordenou: “Venha cá, *, não seja anti-social!” Ele mesmo se encarregou de pôr panos quentes na confusão, defendendo que aquela idade não era fácil, e tal. O amigo, que também não era de conflito, fez o resto do serviço. Mas a mulher estava indignada com o comportamento da filha, e não resistiu a uma alfinetada: “Bom, você deve ter filho com essa idade para saber…” Não, não tinha. Filhos eram algo do qual a baixinha abrira mão alguns anos depois de casados, deixando claro que ele teria que se emendar antes que partissem para o nível três da relação.

Esse comentário adicional ficou só na sua cabeça, mas Florência fez cara de quem tinha captado o pensamento inteiro. Havia nela um amargor guardado para aqueles que não haviam procriado e continuavam a viver sem compromissos que não os do trabalho. “Aí, sim, você ia ter o que merece!”, desejou a mulher, em voz alta. Ele se sentia envergonhado demais para dar uma resposta. Por mais que a maternidade tivesse sido uma opção exclusivamente de Florência, ou dos dois, ela devia respeitar os que se sacrificam por aquilo que querem de verdade.

Almoçaram entre assuntos mais amenos. Germano tinha um bom emprego público, que garantia o sustento da família e muito tempo livre, destinado em boa parte ao futebol, paixão que, para sua grande alegria, conseguira transmitir à filha. Já Florência se esforçava para manter quieta a irritação com o quinhão de sorte que lhe coubera. Em prol do bom andamento da casa, tinha abdicado de qualquer opção profissional, e mesmo dos seus gostos. E o que restara? Uma filha com a qual não tinha laços, com a qual não podia partilhar assuntos femininos, e que iria virar mulher apesar da mãe. O vinho, aos poucos, soltava as amarras de Florência, e ele se sentia cada vez menos à vontade com suas indiretas. Para a hora do cafezinho, a mulher reservou o golpe de misericórdia. “Penso muito no que o Germano, o que eu conheci na faculdade, poderia ter se tornado”, disse. E, olhos fixos nele: “Penso agora também no que VOCÊ poderia ter sido!”

Hora de ir, hora de ir. Uma recorrente. Despediram-se efusivamente, mas nenhum dos três fez menção de marcar novo encontro. Gritou um “até logo” apagado na direção do quarto de * e, como esperava, não teve resposta. Adeus, Rapunzel querida, até uma outra encarnação!

Definitivamente, não tinha condições de trabalhar naquele dia. Ligou para o escritório e, pela primeira vez em sua história profissional, disse que não ia porque estava passando mal. Pegou um ônibus e, em poucos minutos, estava de volta à casa. Ao entrar, ansiava loucamente por uma pílula que o fizesse esquecer o que ele poderia ter sido, o milagre, o diabo, o Botafogo, o pai, os amores platônicos e tudo mais naqueles dias. Atarantado, demorou até perceber que o telefone tocava. Só podia ser ela! Ou a mãe avisando que o pai morrera. Levou o fone bem devagar até o ouvido e a voz veio, impaciente, com timbre, entonação e segurança inconfundíveis.

— Oi. Tudo bem? Olha, estou muito preocupada com você. Na boa, eu acho que você devia acabar aquela briga boba com o seu pai, devia procurar seu irmão e juntar a família novamente. O Natal vem aí, e é realmente muito triste passar uma data dessas sozinho. Porque EU sei que, se ninguém te pegar pela mão, você vai ficar o 24 e o 25 enfurnado em casa, choramingando pelos cantos. Que eu saiba, não vai ter jogo do Botafogo nesses dias. Então, faça um favor para você mesmo e ligue pra eles, tá? O que você me diz?

Dessa vez, o texto foi seu mesmo, com palavras que jamais pronunciara para ela. Palavras que ele estendeu saborosamente, com ênfases silábicas distribuídas ao bel prazer. Música para o ouvido. Metal extremo, diria o irmão. E sem qualquer “atávica” para atrapalhar a festa.

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