="http://www.w3.org/2000/svg" viewBox="0 0 512 512">

2 Complexo de inferioridade

Zé McGill

A picareta desceu com força, explodindo a rocha. Uma vez, duas, a manhã inteira, suscitando faíscas a cada golpe. O esforço empapava de suor a túnica esverdeada do anão, na parte das costas, e os braços desproporcionais começavam a doer. Dentro da mina, não havia tempo pra descanso. A ordem era furar até encontrar pedrinhas brilhantes, sendo permitidas, no máximo, as cantorias em conjunto com os colegas mineiros. Mas no caso dele, nem isso, já que Dunga parecia não saber falar e muito menos cantar. Restava-lhe, portanto, o assobio; e isso era o bastante para alegrá-lo.

Aluado, infantil, desastrado. Dunga era tratado pelos outros anões como um acessório, uma criança ou mesmo um cão de estimação. Zangado dizia que “o Dunga é assim porque vive comendo cogumelos alucinógenos pela floresta. Não passa de um drogado”. Soneca desconfiava que Dunga fosse, na realidade, uma criança disfarçada de anão, e afirmava que “a qualquer hora os pais dessa criança vão aparecer por aqui e seremos todos acusados de sequestro!”. A inocência dele era motivo frequente de pilhéria e irritação para os outros. Sua candura e lealdade raramente eram méritos reconhecidos. Dunga era o pele da turma e não demonstrava importar-se com isso; estava acostumado aos cascudos e reprimendas.

O valor das tais pedrinhas brilhantes, ele desconhecia. Sabia apenas que o patrão gostava delas e que, quanto maiores fossem, melhor. O anão apreciava os diamantes à sua maneira: o brilho das pedras lhe dava prazer, causava uma euforia ingênua que fazia os olhos grandes e azuis dançarem dentro das órbitas. Quando encontrava alguma, corria excitado até o Mestre para mostrar-lhe o achado em primeira mão e voltava em seguida ao seu posto, de mão vazia na maioria das vezes.

Naquela manhã, depois de horas machucando a parede rochosa no canto mais perigoso do fundo da mina, a picareta deu de cara com um metal amarelado que brilhava diferente. Desta vez, os olhos de Dunga se comportaram. Não houve euforia, mas as pupilas dilataram de admiração. Manteve-se imóvel, sequer emitiu os grunhidos incompreensíveis que lhe eram comuns.

Com a ponta da ferramenta, tirou uma lasca e ficou apreciando a beleza da novidade na palma da mão. Cheirou, lambeu, apertou, bateu aquilo contra a rocha, testando sua solidez, admirou mais um pouco e, antes de esconder o metal sob o chapéu, certificou-se de que ninguém o estivesse olhando. O que quer que fosse aquilo, ele sabia que não o veria mais se o entregasse ao Mestre. E não entregou.

Nos dias seguintes, encontrou novos fragmentos do tal metal. Guardava todos sob o chapéu, com a melhor discrição que podia, e mais tarde escondia numa caixa de madeira enterrada no quintal de casa, junto a objetos que estimava por motivos que só ele conhecia: um prendedor de cabelo de mulher, uma carta de baralho — sete de espadas, um disco do cantor Nelson Ned, uma borboleta morta e a fotografia de um homem que exibia orgulhoso o peixe que havia pescado.

Dunga escondeu as descobertas na caixa de madeira até o fim daquela semana. Os outros trabalhadores, inclusive seus seis amigos anões, custaram a perceber o que se passava no canto mais perigoso do fundo da mina, já que o trabalho sujo e as tarefas mais arriscadas eram sempre entregues ao Dunga. Quando havia perigo, mandavam o Dunga na frente, pra verificar. Caso desconfiassem de algum alimento, insistiam que ele provasse antes dos outros… Portanto, era natural que fosse designado a trabalhar nos locais mais ermos da mina, e que ninguém soubesse exatamente o que ele encontrava durante o expediente.

Foi no final da jornada de sexta-feira, quando os mineiros guardavam as ferramentas no depósito, que o segredo caiu. Caiu de dentro do chapéu roxo e sobre o dedo mindinho do pé esquerdo de Dunga, que não conteve o grito de dor. Os olhos dos seis anões cresceram.

“É ouro!” — gritou o Feliz.

“Por isso mesmo, não grite” — disse o Mestre, guardando a lasca no bolso.

“Cala a boca, seu bobo alegre!” — repreendeu o Zangado.

“Dunga, onde foi que você achou isso?” — quis saber o Mestre.

“Conta logo, se não vai ganhar um cascudo” — ameaçou o Zangado, tirando-lhe o chapéu à procura de mais ouro.

“Um-ahn” – foi o que ele respondeu, com as mãos cruzadas atrás das costas e olhando para o chão.

“Você pode mostrar pra gente, amiguinho?” — insistiu o Atchim, com delicadeza calculada.

Dunga balançou a cabeça em sinal de positivo, esboçando um sorriso de orgulho e satisfação antes de guiar os anões pelo interior da mina. Pela primeira vez, ele virou o centro das atenções, já que era o único que conhecia o caminho do ouro. Ele mesmo nem notou, mas passou a receber um tratamento diferente. Ali nascia a Era Dunga.

Dengoso não cansava de bajulá-lo: oferecia até cafezinho nos intervalos do trabalho. Atchim parou de espirrar de propósito na cara dele. Se os outros se impacientavam, o Mestre acalmava os ânimos, pedia que confiassem no amigo. Em casa, os seis faziam questão de lavar a louça, varrer o chão, limpar o jardim ou pendurar as roupas no varal – tarefas que, antes do ouro, geralmente sobrariam para o Dunga.

A parede rochosa que ele tanto perfurou tornou-se o segredo dos anões. Passaram a semana inteira focados naquele canto. Quando alguém passava por ali, os anões começavam a cantarolar qualquer coisa que distraísse o curioso. Cantavam, por exemplo, aquela música do Wando: “Você é Luz / É raio estrela e luar…”. Logo depois, retomavam a busca, sempre orientados por Dunga, que, no fim das contas, ainda era quem mais trabalhava.

Martelaram a semana inteira e não encontraram nada, nem diamantes. A paciência do Zangado estava acabando, o Soneca dormia mais que trabalhava e o Feliz simplesmente perdeu o interesse depois de alguns dias. Finalmente, o Mestre começou a desconfiar:

“Dunga, meu filho, você está mentindo pra gente? Cadê esse ouro, afinal?” — perguntou, largando a picareta no chão.

“É isso mesmo, e onde é que você escondeu as outras pedras que encontrou?” — emendou o Atchim.

“Entrega logo o ouro, seu careca orelhudo!” — exigiu o Zangado.

Acuado, Dunga não sabia para onde olhar. Não entendia por que é que o metal amarelado que ele antes encontrava até com certa facilidade, agora parecia impossível de achar. Estava envergonhado por desapontar os amigos e nervoso, com medo das reações deles. O medo aumentou quando os seis formaram um círculo ao seu redor, armando o cerco.

O primeiro cascudo quem deu foi o Zangado, com uma força que lhe tirou o chapéu da cabeça. Em seguida, veio um chute na bunda, obra do Feliz. Dunga estava encurralado, mas conseguiu escapulir e fugiu correndo pelo interior da mina, perseguido pelos outros. Em seu desespero desengonçado, tropeçou num trilho e bateu com a cabeça na parede de pedra, caindo desacordado. Quando recuperou os sentidos, percebeu que estava acorrentado pelo tornozelo, no mesmo local onde havia encontrado o ouro.

“Você vai ficar preso aí, cavando até encontrar alguma coisa” — sentenciou o Mestre, fazendo pose de juiz.

“E não adianta chorar que ninguém vem te ajudar!” — avisou o Dengoso.

Dunga engoliu os soluços, enxugou os olhos marejados e sentou-se escondendo a cabeça entre as pernas. O horário de trabalho terminou e ele escutou os mineiros irem embora e a porta se fechando. Passou a noite acordado, sozinho no frio sombrio da mina, e começou a refletir sobre aquela situação e sobre o seu papel entre os anões. Ficou deprimido pela primeira vez na vida. Ele aguentava o bullying, estava habituado às broncas e podia sobreviver aos cascudos, mas a corrente… Era humilhante demais, violento demais.

 

Mestre, Zangado, Atchim, Dengoso, Feliz e Soneca chegaram para trabalhar no dia seguinte e foram direto ao local onde haviam prendido o sétimo anão. A picareta, o carrinho de mão, a peneira e até o chapéu roxo estavam ali. Só faltava mesmo o Dunga. A corrente estava despedaçada pelo chão.

“Cadê aquele nanico?” — Procurou o Soneca.

“Esquecemos de guardar a picareta do Dunga!” — disse o Mestre, deduzindo o motivo da fuga. “Vamos fazer uma busca, já!”.

Àquela altura, Dunga já estava bem longe da mina. Decidido a abandonar a floresta e os anões, livrou-se das correntes e correu até o jardim de casa, para desenterrar a sua caixa de madeira, ainda de madrugada. Foi embora antes do sol nascer, com a caixa debaixo do braço e a roupa do corpo; nem entrou em casa para não correr o risco de acordar os outros. Com uma pequena fração do ouro que possuía, comprou uma passagem e embarcou no primeiro navio.

Quarenta e nove dias depois, os anões receberam em casa um cartão-postal, proveniente de Potosí, na Bolívia, e endereçado ao líder:

 

Caro Mestre,

Espero que tenha feito bom uso do ouro que você me roubou. Eu sempre soube falar e escrever, simplesmente não tive vontade de fazê-los nos últimos anos. Mas acho que chegou a hora…

Sei que não deve ser fácil ser um líder. É muita responsabilidade, imagino. Mas aqui vai um incentivo: não desista! Você é um sádico e o sadismo é característica imprescindível para qualquer ditador. Mande lembranças aos seus cinco escravos.

Dunga

PS – Não há no mundo minas como as de Potosí.

 

O Mestre leu o postal e se retirou em seguida, alegando um mal-estar. Passou a semana na cama, num abatimento profundo.

Os outros cinco custaram a acusar o golpe, mas quando o fizeram, foi especialmente por terem sido chamados de “cinco escravos”. Aquilo foi difícil de digerir e mudou a relação entre os anões e o Mestre. A partir daquele postal, não houve mais cantoria durante o trabalho.

Sete dias se passaram até que um novo cartão surgisse na caixa de correspondências dos anões. Este vinha de Bogotá, Colômbia.

 

Prezado Atchim,

A cocaína mata. Você precisa encarar o seu vício e parar de disfarçá-lo com seus espirros ridículos. Quantas vezes reparei que você voltava dos intervalos mordendo os próprios beiços e com um pó branco espalhado nas narinas! Não era uma cena bonita de se ver… Procure uma clínica de reabilitação.

Do seu amigo,

Dunga

PS – Caso prefira seguir espirrando, a melhor cocaína está aqui na Colômbia, dizem.

 

Atchim seguiu o conselho de Dunga e internou-se numa clínica para recuperação de drogados. Estava internado quando chegou o terceiro postal, sete dias mais tarde, diretamente de Ibiza, na Espanha.

 

Meu nobre Soneca,

Desista dessa vida dupla. Até quando você será mineiro de dia e garoto de programa/stripper à noite? Ninguém aguenta tanto trabalho e é por isso que você passa o dia bocejando e cochilando.

Encontrei o lugar ideal pra você! Ibiza é a capital mundial da festa. Aqui você pode trabalhar nas boates à noite e dormir o dia inteiro. Eles pagam em Euros!

Um abraço,

Dunga

 

Foi uma revelação. Os outros anões jamais desconfiaram do trabalho alternativo do amigo, apesar das olheiras negras que ele ostentava sem pudor. Soneca passou muito tempo tentando juntar dinheiro pra viajar para Ibiza, sem nunca conseguir realizar o sonho. Ele foi preso durante uma operação de fiscalização da polícia num inferninho onde fazia strip-tease em cima de um jumento.

Uma semana depois, foi a vez de Feliz receber o seu cartão. No endereço do remetente lia-se: Новосибирск.

 

Estimado Feliz,

Lembrei de você aqui no frio de Novosibirsk, na Sibéria. As pessoas daqui caminham macambúzias pela neve, sem desejar bom dia a ninguém. Para suportar a melancolia, muitos recorrem aos antidepressivos, como eu sei que você faz. Isto não pode ser saudável! Você já pensou em diminuir a sua dose diária de Prozac?

Desejo que um dia você possa ser feliz de verdade, sem precisar dos remédios.

Dunga

 

O destinatário guardou o postal no bolso e foi até o banheiro, onde guardava o frasco de antidepressivos num compartimento secreto. Jogou tudo na privada e deu a descarga. Na semana seguinte, foi até a farmácia e pediu uma nova caixa de Prozac.

Depois de mais sete dias, chegou um cartão para o Dengoso. A foto era da ponte Golden Gate, em São Francisco, na Califórnia

 

Caro Dengoso,

O mundo está mudado. Aqui em São Francisco, por exemplo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado. Você não precisa mais esconder a sua homossexualidade. Não é vergonha nenhuma ser gay. Portanto, vista aquela túnica cor-de-rosa que você nunca tira do armário e não tenha medo de plantar azaleias no jardim. Assuma a sua paixão pelo Zangado… Liberte-se!

Sinceramente,

Dunga

 

Dengoso leu aquilo e corou da cabeça aos pés. Zangado, que estava ao seu lado e também leu as palavras de Dunga, ficou furioso e botou o Dengoso pra correr.

Faltava somente o seu cartão-postal, pensou. Ficou imaginando o que o Dunga teria a lhe dizer, até que, no mesmo dia da semana seguinte, a curiosidade foi saciada com um postal emitido no Cairo.

 

Zangado,

Não guardo rancor dos seus cascudos e xingamentos. Sei que todo esse seu ressentimento tem um motivo. O seu problema é muito comum entre nós, os anões. Chama-se complexo de inferioridade e é uma das razões para a alta taxa de suicídio entre seres humanos com menos de um metro e meio de altura. Eu poderia te indicar um psicanalista, mas acho que isso pode ser resolvido com uma namorada. Você precisa de carinho, precisa ser amado. Por que não dá uma chance ao Dengoso?

Abandone essa armadura de bufão recalcado e assuma a sua alma de anão! Seu destino depende dela.

Cordialmente,

Dunga

 

Zangado não foi mais visto na mina ou em casa. Nem o Dengoso.

Atchim estava internado, Soneca na prisão e o Feliz passava o dia lendo livros de autoajuda na beira do riacho.

O Mestre acendeu o fogão, encheu de água uma chaleira e sentou-se só na mesa comprida. Lembrou que sete dias haviam se passado e foi correndo verificar a caixa de correspondências. Dunga nunca mais mandou notícias.

License

Complexo de inferioridade Copyright © by Zé McGill. All Rights Reserved.

Feedback/Errata

1 Response to Complexo de inferioridade

  1. zé mcgill on 7 de November de 2013 at 18:16 says:

    Revisão:

    Fico sempre com dúvidas nas vírgulas. Se alguém outro puder revisar, agradeço!

    no último cartão postal, tem a frase: “Sei que todo esse seu ressentimento têm um motivo”. Tirar o acento circunflexo de tem.

    Acho que é isso…
    Valeu!
    Abs

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *