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3 Lete e o Sono

Pedro Bonifrate

No limiar entre o sono e a vigília, manchas sem forma particularmente definida zanzavam pelo breu dos olhos fechados de Anaximandro. Amorfas, sim, mas vontades lhes eram inerentes; circular o propósito. Num instante anterior, vagavam indistintamente de um ponto a outro em retas aproximadas ou parábolas tímidas. Compartilhavam cores e texturas quase idênticas. Em outro momento, assumiam órbitas elípticas, transformavam suas tonalidades, tornavam-se umas mais densas que as outras.

Ao termo, eram sete. Distintas em cor, tamanho, textura, densidade; semelhantes apenas nas formas de seus corpos e trajetórias, imperfeitamente circulares. Como passasse a exercer algum tipo de controle sobre os movimentos das formas — vivas —, Anaximandro isolou uma delas em sua visão. Mediu com pensamentos o tamanho de seus desenhos internos, girou a figura em seu próprio eixo, de forma a explorar toda a superfície. Das incógnitas certezas de sua consciência, surgiu um nome, e uma misteriosa assinalação que o associava à forma cada vez mais nítida que agora contemplava: Morfeu. Durante um instante sem medida, soube absolutamente tudo sobre ela (geográfica, histórica, física e quimicamente) e, como tal sabedoria fosse insuportável à sua mente, fugiu. Materializou-se num modelo razoavelmente preciso de si mesmo e pôs-se a correr através do espaço vazio até que, num rompante de pavor, abriu os olhos.

Esqueceu-se.

A princípio, nada enxergou. Com um esguicho de vapor d’água, a porta da cápsula de hibernação controlada se abriu. Anaximandro permaneceu deitado por alguns longos minutos, esperando que a dormência generalizada de seu corpo o deixasse. Inclinou-se para frente, apoiando o peso dos ombros e da cabeça nos cotovelos. Ao mesmo tempo em que o vapor começava a dispersar, seus olhos lentamente conseguiram enxergar o derredor. A sala estava fria. Uma fina película de gelo cobria as paredes metálicas e as demais cápsulas, que se encontravam surpreendentemente vazias.

Seria uma pauta individual? Nunca havia estado em uma. Anaximandro pôs-se de pé sofregamente sobre o chão gelado da câmara. Caminhou rente às cápsulas para ter certeza de que não estavam ocupadas por outros tripulantes. Seria possível que a nave os tivesse acordado antes? O frio lancinante e um ímpeto de pânico controlado o levaram a sair rapidamente do módulo. Ao fechar a porta atrás de si, Anaximandro sentiu com cega satisfação os mornos vapores higienizantes envolverem seu corpo nu sobre o piso da estação. Alguns minutos depois, lançou mão de um par de sapatilhas e de uma das túnicas penduradas na parede do pequeno saguão, vestindo-se lentamente enquanto procurava com inebriada dificuldade analisar as circunstâncias.

Não era costume da Comunidade lançar tripulantes sozinhos através do espaço. Pelo contrário, era de praxe que se enviassem cosmonautas conhecidos entre si, de modo que os laços de amizade e cooperação mútua fossem mantidos ao longo das pautas, e que se mantivessem similares as idades dos tripulantes.

Sem qualquer esboço de conclusão, dirigiu-se ao lavatório. Com as mãos unidas, jogou três conchas de água no rosto, esfregando repetitivamente os olhos. Enquanto se enxugava, mirou-se no espelho e trepidou, num curto espasmo de espanto.

Não havia cabelos em sua cabeça ou pelos em seu rosto.

Como não acreditasse no que os olhos viam, alisou com as mãos o couro cabeludo. É claro que se lembrava vividamente do revoltante procedimento de depilação dos pelos de seu rosto e corpo, efetuado minutos antes da partida; mas ainda que o procedimento de hibernação praticamente estagnasse quase todos os processos fisiológicos, sempre havia cerca de um ano e meio de envelhecimento que as cápsulas deixavam passar. Tratava-se de um acréscimo consciente da Comunidade, que consistia em não negligenciar a possibilidade de danos neurológicos derivados da alienação bruta em relação à linearidade do tempo que uma viagem interdimensional poderia trazer. Conhecia os volumes controversos de Lissa. Sabia que, nas primeiras experiências interdimensionais tripuladas, alguns cosmonautas demonstraram reações histéricas, surtos psicóticos, e mesmo estados variados de esquizofrenia paranoide ou catatônica. Manifestações sempre reveladas a partir do momento em que chegavam ao destino, percebendo-se idênticos ao minuto biológico anterior, e sabendo-se décadas distantes deste mesmo minuto. Um longo período de atividade inconsciente — o Sono, há tanto abolido do cotidiano da Comunidade — parecia neutralizar tais distúrbios, segundo experimentos posteriores.

No auge de sua confusão mental e ainda a contemplar o próprio semblante imberbe, Anaximandro sentiu uma fisgada no ombro esquerdo. Levando a mão direita instintivamente ao local por dentro da túnica, estarreceu-se ao ver que havia agarrado com ela um pequeno aracnídeo. Era preto, media cerca de cinco centímetros de diâmetro e tinha listas amarelas nas oito patas. Enquanto observava bovinamente a aranha a andar sobre seus dedos, sentiu outra fisgada e arremessou o inseto de sua mão sacudindo-a energicamente. Acompanhou intrigado seus miúdos passos em direção à porta de saída, e percebeu uma fresta entre a base da porta e o chão, por onde o artrópode caminhou sem hesitação. Abriu a tampa dos controles e apertou o botão azul. A engrenagem soluçou, esguichou vapor em doses pequenas e irregulares, abriu-se apenas à altura do umbigo e estancou. Agachando-se, Anaximandro passou à outra câmara.

O que viu deixou-o ainda mais confuso, ao ponto de esquecer-se da estranha presença aracnídea, dentro de um veículo espacial, asséptico, navegando os confins da Galáxia. Através da grande janela cristalina, pode contemplar em grande escala os verdes majestosos e sombrios de Morfeu. Seus três satélites naturais — Éris, Apate, Filótes — estavam também à vista, o último deles prestes a se esconder por trás da imensidão musgosa de seu senhor orbital. As quatro formas quase circulares projetadas sobre suas retinas não desafiavam, por elas mesmas, a sua compreensão dos fatos. Descabida era sua indubitável capacidade de nomear tais formas, e de localiza-las na terceira órbita da estrela Lete.

Com uma descarga neural que se fazia sentir quase fisicamente, Anaximandro rememorou os corpos celestes com que sonhara antes de ser desperto pelo sistema de hibernação. Esvaiu-se em dúvidas e tonturas e teve de se apoiar no batente da grande janela para não tombar. Não recordava ter alguma vez se lembrado de um sonho. Além do mais, tinha certeza do sistema onde se encontrava, sempre tivera. Mas como? As pautas acaso deixaram de ser secretas durante o lançamento e o período da viagem? Sabia que não. Sabia que tamanha certeza partira de si próprio, e teve medo.

“Não o tenha”, ouviu a voz reverberar, rouca e velha, pelas paredes da sala.

O sobressalto de outra presença humana se estendeu por alguns longos segundos imóveis, em que procurava conscientemente manter a tranquilidade e a orientação no tempo e no espaço. Finalmente, girou devagar a cabeça em direção à luz branca azulada que brilhava da cozinha conjugada, e que até o momento lhe havia passado despercebida.

O que viu foi um homem velho, provavelmente na casa dos cento e vinte anos, sentado numa cadeira flutuante ao lado da mesa de jantar. Sua expressão jazia oculta por trás das rugas e das marcas de senilidade em seu rosto. Já não cresciam cabelos em sua cabeça, e as mãos esqueléticas repousavam cansadas sobre os braços do assento móvel.

“Não ter o que?” replicou, mesmo sabendo qual seria a resposta.

“Medo.”

Anaximandro permaneceu inerte por alguns instantes, depois começou a caminhar lentamente em direção ao estranho. Seus passos ecoavam pelo salão em intervalos regulares, como arrastados segundos de um velho relógio mecânico.

Observando a face do ancião à sua frente, percebeu que seus olhos miravam o vazio para além das paredes blindadas da espaçonave. Era completamente cego.

“Sente-se”, disse num tom pouco imperativo.

“De onde o senhor veio?”, perguntou Anaximandro, pouco depois de se acomodar na cadeira do lado oposto, mais distante, da mesa.

“Originalmente, do mesmo lugar que o senhor. Mas a esta estação, cheguei de Morfeu.”

“De Morfeu”, repetiu Anaximandro debilmente.

“Perdoe minha insensibilidade, os anos me tornaram excessivamente pragmático. Morfeu é o planeta em cuja órbita esta estação atualmente se encontra. É o terceiro mais próximo da estrela Lete, dentre os sete planetas maiores que o sistema de mesmo nome abarca. A presença humana remonta aos tempos da segunda diáspora, nas últimas décadas do primeiro século pós-solar. Não sei se minhas referências se fazem entender. Sim, sim, correto. Etálides tem a épica mais completa sobre o episódio, de fato. Não se vê mais hoje em dia quem aprecie as humanidades e as antigas crônicas, muito bem, doutor. De todo modo, chegaram os primeiros colonos, descendentes dos artífices jovianos. Assim como o grandioso Júpiter, Morfeu é uma gigante gasosa onde os jovianos puderam aplicar magistralmente sua ciência avançada de manipulação dos vapores de hélio, néon, hidrogênio e outros elementos. Estações flutuantes continentais foram sintetizadas, ainda maiores que aquelas de Júpiter ou Netuno. Os imigrantes construíram uma complexa tecnocracia, pautada espiritualmente nos valores da Eterna Fusão e materialmente em suas tradições tecnológicas, particulares à vida nas gigantes gasosas.”

Anaximandro sorvia a voz do velho agitando o ar com insuspeita ternura, como se lesse um poema da infância, uma epopeia juvenil. Apesar de fracas e roucas, suas palavras eram ordenadas por sua dicção e por sua retórica, de uma fluidez ao mesmo tempo reverente e informal.

“Os jovianos são gente passional, o doutor deve conhecer os épicos da Nova Solar e da Gigante Vermelha. Precisamente! A corrida pela eterna fusão: Apéiron, a matéria primordial, a infinitude. Chamaremos do que for, mas assim como na era solar, os jovianos seguem alimentando uma queda pela disputa e pela belicosidade, como os homens antigos. Faz parte de seu léxico cultural. Seus artífices são orgulhosos, e sua vaidade se cumpre em seus inventos, suas sínteses. Cada um acredita estar mais perto de Apéiron que os outros. No sistema Lete não tem sido diferente. Dissidências fizeram surgir uma nova organização social na segunda grande estação, e depois uma migração em massa de artífices para a outra gigante gasosa do sistema, Ícelo. Os artífices de Ícelo seguem caminhos experimentais descontroladamente vis. Seu planeta é pobre em hélio e néon, mas eles acreditam poder sintetizar Apéiron a partir da exposição dos gases de Morfeu a contínuos bombardeios de altíssima energia destrutiva. Como se poderia esperar, os procedimentos dos artífices de Ícelo desestabilizaram completamente a vida em Morfeu, suas estações se esfacelaram; a maioria dos jovianos abandonaram o planeta e construíram estações simples nas luas Filótes e Apate, de onde há mais de oitenta anos travam uma verdadeira guerra de feixes de prótons e de espionagem com Ícelo.

“A conjuntura não tem sido nada boa para os morfeanos, mas nos últimos anos muitos acreditam estar na iminência de uma reviravolta. Tudo se relaciona a uma de suas profecias. Os artífices pensam ler o futuro através do comportamento de gases instáveis, e os vapores dizem que um novo elemento está chegando a Morfeu. Uma nave solar, diziam alguns. Uma civilização não contatada, diziam outros. Assim como o senhor, eu sou um homem de ciência antiquado, e não dou muito crédito a previsões e superstições. Mas cá estou, olhando para um homem que — como eu — chegou do longínquo sistema solar, numa nave ausente de pautas e sozinho.”

Durante toda a narrativa do solar incógnito, Anaximandro quis intervir com perguntas e observações, mas algo inexplicável o impedia. Era como se uma droga estivesse desacelerando seu sistema nervoso. Ao fim, conseguiu apenas proferir algumas palavras de compreensão, e perguntar por que estavam eles dois ali. Mas exatamente quando conseguia formular a questão, percebeu algo perturbador na figura de seu interlocutor. Uma faísca fria percorreu em um quarto de segundo todo o corpo do ancião, dos pés até a cabeça.

“Um holograma?”

“Em certo sentido, sim. Mas não como uma emulação ótica tridimensional do meu próprio corpo. Cá onde estamos, as coisas andam mais fluidas.”

“Cá onde estamos?”

“Meu paradeiro não tem relevância, mas o senhor está, neste momento, se aproximando de Morfeu num módulo automático de reentrada, ainda em sono profundo, um sono do qual o senhor ainda não acordou. Mas em breve acordará, e conhecerá o que resta da superfície artificial do planeta e seus refúgios subnebulosos, e se engajará naquilo que lhe parecer mais coerente. Talvez interpretar um papel central numa grande revolução planetária, sabe-se lá. A tecnologia joviana tomou aqui rumos inesperados. O último recurso dos artífices de Morfeu contra os de Ícelo é o seu conhecimento dos vapores que afetam a mente, e permitem artifícios de manipulação da substância onírica, capazes de dobras espaço-temporais sem precedentes, de viagens não apenas através do espaço, mas também do tempo e, mais modestamente, do tipo de intervenção que me permite estar aqui à sua frente.”

A ideia de que estava sonhando trouxe a Anaximandro uma intensa euforia. Era como se tivesse se libertado de um sedativo. Conseguiu, enfim, retrucar de forma objetiva.

“Então, até onde eu sei, o senhor pode muito bem não existir; ser apenas uma projeção onírica dos artífices jovianos para a minha recepção. Um mero artifício mental.”

“De fato. Posso perfeitamente não ser de carne e osso, nem aqui, nem em Morfeu, nem em lugar algum. O senhor não me verá mais por muito tempo, o que provavelmente contribuirá para esta percepção. E se o senhor for seguir este raciocínio até mais adiante, concluirá que talvez nada do que eu disse faça sentido. Todo o épico de Lete, artífices jovianos, a busca por Apéiron, a sua própria viagem, não passariam de fantasias de um homem adormecido. Este poderia ser o senhor, ou talvez eu mesmo. Poderia ser qualquer outro. A não ser por uma ciência, que enxergo ao fim dos túneis dos seus olhos. Eu a vislumbro nas suas pupilas, por trás de toda apreensão e temor. Eu a conheço. Eu a posso compreender. Ela diz que o senhor jamais sairá de Lete.

“Mas nada disso já importa. Algumas das minhas palavras lhe devem ser caras ao longo da sua jornada, outras o senhor apagará da memória de forma irreversível. Agora realmente já não há mais tempo. Seu módulo de reentrada já foi interceptado por uma das estações ocultas de Morfeu, os jovianos já o cercam e já tomam providências para que seu despertar seja o mais plácido possível. Nossa atual dimensão já perde rapidamente sua artificiosa solidez, as paredes da estação já se tornam translúcidas. É hora de despertar. Desperta, Anaximandro!”

Despertou.

Foi saudado pelos jovianos de Morfeu como o enviado das estrelas anciãs – elo insondável entre Lete e a Gigante Que Já Não Há, a chave para o desvelamento de Apéiron.

Em poucos anos, habituou-se à vida nas estações jovianas, acostumou-se a períodos quase diários de sono, debruçou-se como poucos sobre a extensa épica do sistema, apreendeu com experiência e sensibilidade a cultura dos povos sobreviventes de Morfeu e de suas luas, onde teve a oportunidade de atuar – primeiro em viagens de pesquisa e, mais tarde, em sucessivas e formidáveis missões diplomáticas. Tornou-se o grande Embaixador dos jovianos de Morfeu diante de seus lunares e de seus inimigos. Esteve em todos os planetas do sistema, habitados ou não. Estabeleceu-se em Filótes, lua que abrigava a maior comunidade morfeana do sistema após os primeiros anos de conflito. Promoveu conexões com os povos há muito isolados de Moro, que se tornaram preciosos aliados numa incrivelmente sinuosa estratégia, que acabou por engendrar a primeira trégua com Ícelo. Em Éris, por pouco escapou de ser assassinado numa conjura de negociantes inescrupulosos que haviam perdido seus lucros e poderes com o fim da guerra, e foram depois devidamente banidos de Lete. Por décadas gozou o sistema do equilíbrio da paz. Ícelo e Morfeu dialogavam com mútuo respeito sobre seus objetivos comuns, e compartilhavam experiências e resultados na incessante busca por Apéiron. A superfície de Morfeu voltou a ser amplamente habitada. Liderou uma grande expedição científica a Fântaso, onde o comportamento improvável de certos vapores contribuiu com inestimáveis avanços experimentais no sentido da interferência da matéria nos sonhos, e dos sonhos na matéria.  Viajou com os artífices à órbita imediata da estrela Lete, colhendo amostras elementares e mapeando seus fenômenos físico-químicos. Interferiu com desenvoltura diplomática sempre que um novo conflito se anunciava entre as duas maiores gigantes do sistema. Quando os anos já lhe pesavam sobre o corpo e o espírito, recolheu-se parcialmente à experiência onírica e à escrita poética, mas sempre disposto à ação e ao aconselhamento junto aos novos grandes artífices.

Numa noite branca e azulada, sonhou com o colapso de Lete. Ele próprio contemplava pela janela de uma estação orbital a formação do buraco negro, que começava imediatamente a engolir toda a luz em seu derredor, e com ela sua própria presença. Quando acordou, recebeu um comunicado perturbador. Um veículo espacial foi detectado pela estação do planeta Kera, nos limites do sistema. Os artífices identificaram, através de sondagens projecionais, uma forma de vida adormecida no interior da nave. Alarmistas proféticos falavam do início de um novo ciclo histórico, da chegada de um novo mensageiro das estrelas anciãs, e até mesmo da personificação de Apéiron num viajante interestelar.

Os artífices reuniram um conselho de longa duração para decidir que providências tomar. Pelos corredores das estações de Morfeu, circulavam rumores sobre uma missão de recepção encabeçada por Ícelo, que cooptaria o mensageiro das estrelas à sua causa nefasta. Sinais de um novo conflito tornavam-se legíveis no desenho político de Lete. Finalmente, os jovianos decidiram enviar uma projeção onírica para a recepção da espaçonave e de seu incógnito tripulante, que já se aproximavam da órbita de Morfeu.

Seu mais estimado embaixador foi escolhido para protagonizar a missão.

Anaximandro adentrou a cápsula com receosa ansiedade. Enquanto os vapores  morféticos tomavam o lugar do oxigênio, primeiro no interior do dispositivo, depois adentrando as narinas e atingindo os pulmões, atravessou um curto devaneio em que não havia forma, cor ou textura alguma a ser vista, apenas sons estáticos agudos e sensações térmicas ondulantes. Quando finalmente emergiu num espaço onírico complexo, tudo o que percebeu sensivelmente foi um esguicho sonoro de vapores seguido de passos cautelosos sobre um piso metálico. Sentiu a presença do tripulante adormecido, seu temor e sua confusão diante de uma conjuntura desconhecida. Aceitou o que, em seu âmago, sempre tivera como certo.

Saudou o viajante com polidez, fez uma breve exposição dos antecedentes do sistema Lete, deixou transparecer vez ou outra que sua pauta, apesar de indefinida, poderia ter certa importância para a política do sistema. Manteve um tom ligeiramente teatral em seu discurso, como se pudesse pôr tudo a perder evidenciando seus personalismos e vícios de linguagem. Ao fim, comunicou o estado onírico de sua presente conjuntura. Ao mesmo tempo em que a imagem do viajante tornava-se translúcida, dissolveu-se em si mesmo.

Despertou.

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Lete e o Sono Copyright © by Pedro Bonifrate. All Rights Reserved.

Feedback/Errata

1 Response to Lete e o Sono

  1. Pedro Bonifrate on 1 de November de 2013 at 23:18 says:

    Parágrafo 2:
    “Das incógnitas certezas de sua consciência, surgiu um nome, e uma misteriosa ASSINALAMENTO que o associava à forma cada vez mais nítida que agora contemplava: Morfeu.”
    A palavra em maiúsculas é “ASSINALAÇÃO”. Além de não estar concordando com o adjetivo, não é substituível por “assinalamento”.

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