1 Nem tudo precisa de um título

Carolina Neves

 SYD (POR MIM)

Pra pessoa se sentir bem, o que é que tem?

— Prozac, Luvox, Verotina…

— Bem assim, de felicidade, digo.

— Mais felicidade?… Ópio, ecstasy, mescalina.

— Uma coisa mais natural, que não seja ilegal, sozinho já chamo muita atenção.

— Tem floral.

— Não acredito, não.

— Ah, se a carência é essa, tem também um pouco de crença, sai um bocado.

— Já experimentei, maior desavença, o troço da culpa não deu pé.

— Bom, já que nem fé….tem lua enchendo, lua esvaziando…

— Não, dá melancolia, eu queria uma coisa assim de alegria.

— Um piá? Se calhar já arrumo um criado.

— Filho é complicado, nada que dê dor de cabeça, que venha com tanto chiado.

— Olhando assim pro senhor, me desculpe, mas eu não posso nem oferecer um amor.

— De repente meu destino já foi traçado.

— Na ponta do destino tem uma caneta e quem faz o traçado é a veneta.  Mas as vezes a pessoa precisa nascer de novo pra se acertar na vivência. Só que isso não é de minha competência. Só sei mesmo é da minha mercadoria.

— Então deixa pra outro dia.

— Mas se o senhor quiser uma companheira infalível, pra coisa toda fazer sentido e ter um pouco de graça, vendo pro senhor minha melhor cachaça.

 

Foi com este diálogo que Syd sonhou no dia em que resolveu traçar seu próprio destino. Muitas das coisas que acontecem na vida de Syd, tendem a acontecer em rima, quando são eventos premonitórios com desenrolar vantajoso. Acho que você vai gostar do Syd. Especialmente se você for do tipo que gosta de Harley Davidson. Syd não tem uma, mas teria se não fossem algumas questões desvantajosas. Eu simpatizo muito com o Syd porque acho extraordinário alguém que consiga viver na inoportunidade e ainda assim ter um desenrolar vantajoso. No diálogo com o qual Syd sonhou, claro, ele não era o vendedor.

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SYD (POR SYD)

“a indulgência é a maneira mais polida de desprezar alguém” *.

Acho inferiores as histórias que começam com a citação de outro autor. É o primeiro sinal de que sozinho esse cara não consegue contar a própria história. Se alguém já disse o que a pessoa tem pra dizer, é melhor essa pessoa ficar calada. Digo isso porque não serei indulgente comigo mesmo. E porque eu penso muita coisa dessa ordem quando estou pensando sem parar. Eu costumo pensar sem parar e as vezes preciso ser indulgente comigo mesmo. O motor da vida é o mistério da alma humana. Nada mais indulgente do que isso. Ninguém sabe nada sobre ninguém e é isso que faz com que a gente siga adiante. Não fosse a possibilidade de me sentir superior, a constância com que me sinto inferior (a quem? à própria vida talvez?), o que me faria seguir adiante? Eu sigo adiante porque não sei nada a meu respeito (nada além do que preferia não saber). Porque acho que amanhã serei uma pessoa melhor. Porque pode haver um dia em que alguém nesse mundo não estará sozinho. Porque eu não sei nada a meu respeito (ou a meu respeito no futuro), então esse alguém pode ser eu. Eu sigo adiante porque não sei nada a respeito dela (em nenhum tempo) e de sua insondável alma. Almas são insondáveis e acho que alguém já disse essa frase.

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SYD (POR MIM)

Syd tem essa mania de narrar seu dia para si mesmo. Ele passa a vida como se fosse o narrador e o protagonista de um livro escrito dentro de sua cabeça. Ser duas pessoas ao mesmo tempo às vezes é bastante cansativo. Simpatizo com essa tendência à cavilação mental perpétua. Não pretendo julgar as tendências de Syd e sou contra categorizar comportamentos com jargões psicanalítico-psiquiátricos. Nem tudo precisa de um título. O livro que Syd não escreve, onde narra sua vida dentro de sua cabeça, também não tem título nenhum.

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ELA (POR MIM)

A voz chega antes. Depois, o barulho dos saltos altíssimos a agulhar o chão. Depois, o perfume francês de primeira. Só quase no fim que ela aparece. Então começa tudo de novo porque ela se mexe tanto que sempre deixa a impressão de looping. Os olhos, há quem desconfie que dependam dos sapatos. Podem ser verdes, caramelados, podem até brilhar num tom arroxeado, mas hoje são azuis. Azuis turquesa. Ou estão refletindo a sombra azul turquesa que ela usa, não há certezas. A pele deve ser morena clara, mas prefere se apresentar bronzeadíssima em spots precisos no alto das bochechas preenchidas, no centro da longa testa, no queixo que já guardou um furinho no meio e na ponta do nariz que atualmente funciona como uma pinça que desobriga seu lábio superior a encontrar o de baixo. O vestido, tem estampas de motivo afro, mas o motivo pode também ser indiano, são 3 cores, além das que compõe o arco-íris. Um cinto, de  aproximados vinte centímetros de largura, remodela a vestimenta à sua silhueta opulenta.

Mas eu não a julgaria só pela aparência.

Porque o sumo dela é a pressa. E a vontade de se sentir livre de tudo que não seja libertador. Com exceção do cinto e dos saltos altos.

 

Ela entra no bar em frente ao apartamento de Syd e pede um chopp.

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SYD (POR MIM)

Da janela de seu apartamento, Syd vê que ela entrou no bar, sentou e pediu um chopp.

Syd acha que opulência é sinal de generosidade.

Através de sua janela, Syd a vê sentar no bar e pedir um chopp há sete meses, treze dias e quatro minutos. Não fosse por medo do destino e por gastar tanto tempo não escrevendo dentro de sua cabeça o livro com sua própria história, Syd já teria atravessado a rua e se sentado ao lado dela.

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SYD (POR SYD)

“morrer pouco me importa, o diabo é deixar de viver” **.

Vou jogar esse livro de citações pela janela. Pior do que ficar citando algum autor é tirar a citação de um livro de citações, sem nem se dar ao trabalho de realmente ler o autor citado.

Vou parar de ser indulgente. Vou fazer o meu próprio traçado, vou usar minha própria caneta. Vou me lançar no motor da vida, morrer pouco me importa. Talvez eu deixe o livro na cabeceira e jogue a mim mesmo pela janela.

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SYD (POR MIM)

Syd se sente inferiorizado. Não por sua estatura, mas pelo tamanho de seu coração. Ele o considera pequeno demais — embora fisiologicamente seja do tamanho padrão. O coração de Syd promove infindáveis parágrafos no livro que ele não escreve em sua cabeça. Syd já sofreu desilusões amorosas e acha que a culpa é de seu coração. Hoje ele tem dificuldades em acreditar que as coisas possam dar certo neste campo da vida. Essa é outra coisa que gosto em Syd. Ele é como todo mundo porque se sente inferior, sente que tem um coração de tamanho inadequado. A maioria das pessoas julga a si próprias como pessoas com o coração grande demais e atribuem a essa desproporção às desventuras mais dolorosas de suas vidas. Com Syd, acontece o mesmo, só que ao contrário, para ele, seu coração é anão.

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ELA (POR MIM)

Ela está sentada sozinha no balcão e pede o segundo chopp com um sorriso. Seu perfume ocupa todas as cadeiras vazias e ocupadas do bar. Quase todos os dias é a mesma coisa, ela se senta e pede um chopp — para começar. Só não são todos os dias porque ela, infelizmente, ainda tem algum pudor: não quer ser taxada de alcoólatra, não quer ser taxada de mulher fácil. Ela não é. Ela é uma mulher difícil que não bebe diariamente por dependência, mas porque sabe que o álcool preenche os buracos da alma. Toda alma tem buracos. Este é o problema da alma, ser repleta de buracos. Então, ela bebe e o álcool ocupa todos os buracos, só que no caminho até sua casa, por ser cheia de buracos, a alma deixa vazar todo o líquido alcoólico e os buracos ficam vazios de novo. Por isso, ela às vezes sai com alguns homens. Eles, para ela, são borracheiros da alma, que tapam os buracos como furos nos pneus. O problema é que ela não encontrou ainda nenhum borracheiro realmente competente, que conseguisse remendar os buracos por um tempo razoável.

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SYD (POR SYD)

Me lancei no motor da vida.

Mas não pulei a janela, usei as escadas pra sair de casa.

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ELA (POR ELA)

Hoje estou otimista.

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ELA (POR MIM)

Se o mundo acabasse hoje, ela seria do tipo que gastaria os últimos minutos dançando.

Ela já dançou muito. Já amou. Já foi amada. Já teve o coração partido. Não sei se já partiu algum coração, talvez não seja afiada o suficiente para isso. Ela conhece a solidão só de olhar. Ela poderia ser personagem de todas as canções populares já escritas e romances de banca de jornal e livros de auto-ajuda, ela é o público alvo de programas de variedades feitos para canais femininos. Descrevê-la vulgariza a minha narrativa, ela é comum como todos nós somos, embora muitos não percebamos esse detalhe sobre nós. Talvez por isso ela me faça pensar nas minhas próprias inoportunidades e concluir que inoportunidades são substâncias que pertencem à vivencia da nossa espécie. Ela seria igual a todo mundo se todo mundo fosse igual.

Ela seria igual a Syd. Ela diz que as mulheres, quando envelhecem, ficam com osteoporose na alma. Se Syd ouvisse isso, diria que os homens também. Diria que os cachorros também. Diria que até as lagartixas quando envelhecem ficam com osteoporose na alma. Ela acha que osteoporose na alma é o avesso da esperança. Ela já teve esperança. Hoje ela tem otimismo. Para ela, o otimismo é uma disposição. A esperança é uma falta de vivência.

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SYD (POR MIM)

Syd se lançou em seu precipício. Ele está no ar. Ele está em queda livre. Ele está na entrada do bar, olhando para dentro.

Assim como ela, Syd também não costuma se sentir demasiadamente só: o narrador — do livro de dentro de sua cabeça, que não está escrevendo — faz companhia para o protagonista e vice-versa. Syd se sente só quando está vivenciando e, nessas poucas vezes, Syd se apega ao motor de sua vida.

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SYD (POR SYD)

Está cheio. De gente. Só a ideia de juntar estas quatro palavras na mesma frase é suficiente para que me sobrevenha uma claustrofobia… merda, também não posso usar esta palavra. Vou começar de novo. Eu nunca frequento lugares cheios. Nunca. Eu não ando de elevadores, a começar pela justaposição infeliz de significados que a palavra traz. Mas hoje vou ignorar minhas inoportunidades. Vou ignorar que em minha vida, muitos dos sucedidos, na verdade, são meros desacontecimentos e vice-versa. Está cheio. Entupido. Entupido eu posso falar porque me remete a pias e encanamentos e eu não tenho um problema com eles. Sou bom em tapar buracos. Este é um bom pensamento, do tipo que evita mais uma das minhas crises. Com a economia do jeito que está, crise também é uma palavra que posso falar sem submergir em evocações.

Hoje eu não vou esperar até amanhã.

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SYD (POR MIM)

Syd chama qualquer evento de desacontecimento e vice-versa porque tem medo do motor da vida. E ter medo é o motor de sua vida.

Não pretendo julgar as tendências de Syd e sou contra categorizar comportamentos com jargões psicanalítico-psiquiátricos.

Se o mundo acabasse hoje, ele provavelmente gostaria que o fim chegasse enquanto a assiste dançar.

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ELA (POR ELA)

Hoje acaba hoje. E eu só paro no fim.

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SYD (POR MIM)

Agora Syd não tem outra saída, tem que entrar no bar porque todo o quarteirão já notou a sua presença. Syd é notado onde quer que vá, por isso sai pouco. Syd tem uma enfermidade hormonal. Me identifico com isso também. Considero que todos nós temos uma enfermidade hormonal. Não fossem tantos hormônios e suas demandas, suas urgências, seus estímulos, não fossem tantos hormônios, o mundo talvez não fosse doente. Os seres humanos, assim como os frangos, deveriam ter suas versões sem hormônio disponíveis para consumo. Gosto de Syd porque pelo menos sua enfermidade hormonal tem um nome. Gigantismo hipofisário. Eu não gosto de títulos e não direi que Syd é um gigante, nem acho relevante a compreensão de seu sentimento de inferioridade. O que importa é o fato de que toda vez que sai de casa, Syd se sente inferior, acha que seu coração é pequeno demais. Embora fisiologicamente o coração de Syd seja do tamanho padrão, comparado a sua estatura, o coração de Syd é pequeno. Syd tem um coração que considera anão.

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ELA (POR ELA)

O maior amor do mundo é grande demais para mim.

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SYD (POR MIM)

Syd entra no bar e se senta ao lado dela.

Syd já está em queda livre em seu precipício e as coisas nesta altura mudam de proporção. Breve, Syd falará com ela.

 

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SYD

mmm.

rrr.

mmm.

Há muito que eu te vejo daquela janela.

(E hoje eu não vou adiar mais a minha vida.)

Eu não tenho muito para te oferecer.

Mas eu pago seu chopp.

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ELA (POR MIM)

A voz de Syd soa como um carinho e ocupa todos os espaços dela por um instante. Os vazios e os ocupados. A voz de Syd é mais doce que seu perfume de primeira — para ela.

Syd  a enternece.

Viver a enternece.

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ELA

Há meses eu te vejo naquela janela. Você chama atenção.

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SYD (POR MIM)

Syd não sabia, mas às vezes, um precipício pode repentinamente se abrir, mesmo quando já se está em queda livre, em outro precipício.

Syd está em queda livre ao quadrado — se seu narrador continuar sensível como é, talvez só sobre seu protagonista. Com tanta queda livre, não é impossível que seu narrador morra de infarto.

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ELA

Uma dose daquela cachaça envelhecida tá bom pra começar.

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SYD E ELA (POR MIM)

Particularmente, não gosto do tipo de sonho que Syd tem (prefiro seus delírios), nem acho que ele precise nascer de novo para acertar na vivência. Embora não goste do estilo literário, não julgarei o sonho porque sei que a rima é um sinal de desenrolar vantajoso para Syd. Talvez seja porque a rima, se você pensar nas frases, costuma harmonizar os tamanhos.

Para mim, a inoportunidade é uma das alternativas da oportunidade.

Syd sente alguma coisa assim de alegria.

Ela sente alguma coisa assim de felicidade.

Alegria e felicidade são palavras lindas. Se as palavras não fossem feitas de ar, tapariam todos os buracos.

 

Em um instante de delírio, Syd se imagina pilotando uma Harley Davidson com ela na garupa. Almas ao vento. E não se sente ridículo, como se pilotasse um velocípede infantil. O motor de sua vida está em processo de aceleração em um precipício que se abriu dentro de outro precipício. Nesse lugar, as coisas mudam realmente de proporção.

Ela vai olhar nos olhos dele e fazer uma citação agora, vai dizer que a expressão dele a faz lembrar do trecho de uma poesia, a única que sabe de cor.

Syd não vai se incomodar em acabar a história com uma citação. Mas vai torcer para que a história não acabe aqui.

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ELA

“não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação

 

não posso adiar meu coração.” ***

FIM DA HISTÓRIA.

 

EU (E A CONCLUSÃO DE OUTRA PESSOA QUE TIREI PENSANDO NO TAMANHO DA HISTÓRIA DE SYD)

 

“pra que cara feia?

na vida

ninguém paga meia.” ****

* Mário Quintana

** Mário Quintana

*** António Ramos Rosa

**** Paulo Leminski

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2 Responses to Nem tudo precisa de um título

  1. André on 8 de November de 2013 at 15:40 says:

    no parágrafo que começa com
    “Syd (por mim)
    Syd se sente inferiorizado”
    – linha 11: inserir acento de crase em “as desavenças”. o certo é “às desavenças”

    • juliosilveira on 12 de November de 2013 at 02:50 says:

      Não seria “às desventuras”?

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