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8 Nuvens brancas

Antônio Dutra

Nunca pensou que seria assim, finalmente conheceria essa junção de duas sílabas que lhe esfriava as mãos. Mor-te. Pela primeira vez, tão próxima, subtraindo um pouco mais de ar a cada hora, se alojando como parasita no corpo estendido no pequeno leito, há muito preparado para… Uma eventualidade, ainda pode lembrar o tornear da madeira, o tronco da árvore tombando no meio da floresta, as precauções que foi obrigado a tomar para que não atingisse qualquer um daqueles que lhe tomavam por pai. Morte, os olhos marejados com os pequenos cílios úmidos, aqueles seis companheiros dispostos ao lado da cama formavam um conjunto que partia o coração de ver.

Não adiantava pedir que não chorassem, que só trazia mais sofrimento ver todos os seus pupilos embargando a voz, quase implorando que ficasse, quando tinha certeza de que iria partir. Por favor, parem com isso, pediu mentalmente, no que não foi atendido, em parte devido à mudez de seus próprios lábios. Dunga se aproximou da cama como que representando o anseio do grupo: Mestre, há algo que a gente possa fazer? Fechou os olhos na certeza de que entenderiam o aborrecimento que traziam nesse gênero de coisas e pedidos piegas. Por favor, parem. Pensou consigo, mais uma vez o arfar opressivo tornava sua expressão sofrida, apesar de não sentir dor em um ponto específico do corpo, mas algo mais difuso, a dor era a certeza de que ele — na inteireza da consciência e corpo — se dissolvia.

Faltariam poucas horas ou minutos? E toda essa divisão de antes e depois tornada irrelevante, futuro e passado, o que foi feito do ontem e o que será desse amanhã após essas passagens vagarosas do tempo? Jurava para si que talvez a angústia que pesava não fosse tanto devido ao fim, mas à certeza de que em algum momento daquela hora em diante, ou talvez pela manhã do dia seguinte, em pouco menos de vinte e quatro horas, não haveria mais quem soubesse de todas aquelas memórias que sorrateiramente afloravam na superfície do pensamento de imediato feito espuma de leite fervido. Não haveria um único elo que ligasse todas as histórias: o beijo roubado da pequena Hiords, no meio daquele jardim que contornava a casa dela, e o desejo de recolher seus brinquedos de menino, antes que a mãe dela descobrisse tremenda falta de decoro.

A peraltice de criança… era estranho notar que a memória surgia vívida. Mestre, o desconforto é muito grande? A falta de ar cedera. Sacudiu a cabeça em negativa. Era pouco habitual ver os pequenos perfilados, buscando palavras que soavam infelizmente inúteis. O mestre, o mestre; que significava isso, agora? Sentia as mãos frias, esfregou uma na outra em uma vaga leva de força, no que foram acolhidas nos dedos minúsculos de Dengoso. Está bem mestre? Sim, sim, sim; era o que quis dizer concordando, sacudindo levemente a cabeça. Pediu para recostar, apontando para a mesa ao lado da cama onde repousavam os óculos, no que foi atendido por Dengoso. Passou as hastes por trás das orelhas, agora sim, a miopia como mágica esvanecia por detrás das lentes.

Queria escolher o sucessor, aquele que seria capaz de coordenar o trabalho a ser feito, a corta da madeira, a marcha de volta para casa, a defesa do vilarejo. Fez menção de que eles mesmos que sobrevivessem a sua partida deveriam saber qual seria o papel de cada um na comunidade, disse em uma voz miúda, cosida, descascada de certeza. Zangado, que mantinha os olhos na porta de entrada, como se toda aquela cena não pertencesse a ele também, poderia reconhecer em cada um deles a curiosidade; havia simpatia, dor nos olhos deles, mas a curiosidade que se reconhece nesse limite incontornável de dissolução e desespero, como lebre vendo outra sendo capturada, lança o último olhar de terror. Reconhecia a mesma dor, como se esse ato final imprevisto… não mais do que isso: como se implorassem silenciosamente que o mesmo não os alcançasse, como se pudessem cada um a seu modo ludibriar, no último instante, a materialidade do corpo, como velhos castelos que, três ou quatro gerações depois de construídos, vão sendo carcomidos, primeiro no reboco, depois na janela, depois nos detalhes ecleticamente gregos, para por fim exporem o tijolo, a matéria básica de suas vergonhas, antes de virem a baixo. Podia compreender que algum pensamento dessa linha lhes ocorria: não, comigo não; como se fosse possível barganhar, o que sem dúvida até mesmo ele teria feito, se fosse possível. Sabia que esperavam que chamasse um a um, dissesse meia dúzia de palavras sapienciais, mas não faria. O que teria que dizer seria modulado conforme o temperamento e possibilidade de entendimento de cada um. Não havia tempo nem fôlego para isso.

Chá, maçã, por favor. A voz lhe saía aos bordões, entrecortada, como presa na própria garganta. Feliz aproveitou a ocasião pra fazer jus ao nome, crendo ou querendo crer, ou pensando que fosse possível crer na melhora do Mestre, adiantou-se e caminhou nos seus passos curtos em direção à cozinha, pondo a chaleira embaixo da torneira, deixando a água cair em um jato forte e constante, o mero contrair de sobrancelha do Mestre era suficiente para Feliz lembrar que a chaleira tinha sido da mãe do Mestre, era preciso ter muito cuidado. Feliz girou a torneira mais lentamente preenchendo o recipiente com suavidade.

Recostado nos travesseiros, dava uma boa olhada na casa, virou a cabeça e atrás de si, sobre a cabeceira estava a janela de madeira. A primeira coisa que aprendeu a fazer, uma janela com o pequeno coração que se formava no meio quando fechada. Era curioso que a primeira coisa que fez surgisse nesses últimos momentos. Ah, bobagem, resmungou consigo.

Pelos barulhos característicos, podia imaginar a sequência da ação de Feliz, primeiro pegar a xícara, depois o silvo da chaleira, a retirada do fogão, o ai, ai , ai de segurar sem se lembrar de pegar a luva antes, o choque da chaleira com a xícara que se espatifa em milhares de pedaços no chão. O andar de Zangado, que acorre até a cozinha, esbravejando e trovejando pragas e maldições, seguido de Atchim e Dengoso. Pediu a Dunga para repousar os óculos na mesa, para que ficasse mais à vontade.

Nunca vão parar com isso, meneou a cabeça, o que fez que os demais acorressem para cozinha: O mestre está morrendo! Ouviu ao longe. Era Dengoso. O silêncio, novamente a mesma sequência, agora perfeita, de água sendo vertida na xícara, e todos voltavam.

O Mestre recebeu a xícara de chá das mãos de Dengoso. Obrigado. Sentia frio, será que eles também sentiam?… Daria tudo pra poder voltar no tempo e, como eles, sentir o vigor da vida, ah, e seus velhos tempos, esses sim eram bons, sorveu o último gole do chá entregando em seguida a Dengoso a xícara vazia. Feliz e Soneca — depois de receber um empurrão de Zangado – ajudaram o mestre a deitar.

Ah, daria tudo, rever Gigi. Gigi em seu minúsculo corpete, quase podia ver, ah, se ela pudesse adentrar nos seus passos melindrosos, as meias verdes que cobriam até os joelhos, movendo os braços como se fosse retirar a écharpe de pluma do pescoço, ah, que sorriso, Gigi, podia vê-la passando invisível pelos demais anões, rodopiando quase irreverente entre os anões estáticos, cuidado, Gigi!, podia vê-la balançar o quadril sorrindo pra ele, lançando a écharpe no chão, ah, ainda ergueu os braços, como se quisesse pegá-la no ar, em vão, ah, essa canção sim, que traduzia mentalmente a cada verso cantado por Gigi: “Pour le repos et le plaisir du militaire” (para o descanso e repouso do militar), “Il est là-bas à deux pas de la forêt” (lá a dois passos da floresta), “Une Maison aux murs tous couverts de lière” (uma casa com os muros cobertos de trepadeira), tirando uma das luvas, sobre o corpo do Mestre… Cantarolando Gigi, passando a língua nos lábios lentamente, “c’est Le nom du cabaret” (é o nome do cabaré), “La servante est jeune et gentille” (a atendente é jovem e gentil), Gigi se reclina, monta em seu corpo, a ampla barriga, ah, Gigi tantos anos e você ainda lembra, ah, minha querida, eu sempre te amei, ah, Gigi, que sorriso mavioso, você duvida do meu amor? Me leva daqui, querida, ela sorri displicente e balança a cabeça que não.Vamos cantar mais uma vez a velha canção Madelon, La Madelon, vamos… mais uma vez…Gigi… e ela desvanece, some por si só, como fumaça.

Foi com surpresa que notou os olhos dos seis anões voltados pra ele e seus próprios braços estendidos para cima apontando para o ar, retomando em seguida a compostura a contragosto.

Agora voltava a mesma dor que parecia carcomer por dentro primeiro os nervos, as mãos crispadas, como qualquer coisa dentro de si vivendo sem sua interferência, ou melhor, morrendo; sugando dele como se seu corpo todo fosse hospedeiro de algo invisível, mas quase palpável. Absorvendo os nutrientes, os fluidos, os leucócitos, o tônus dos músculos, a vontade de viver, a lucidez. Como um verme gigante, um animal, um caranguejo doendo, implodindo o conjunto do corpo, ou antes: sugando a energia vital, transformando. Mestre, fique, soluçava Dengoso. O ar se retirava do tórax e retornava cada vez mais devagar.

Abram essa janela!, Sugere Zangado. Dois dos anões ajudavam a deitar melhor na cama, amparado pelos travesseiros, enquanto alguns deles (mal podia notar quem) abriam a janela. O mestre meteu os olhos naquele facho de luz que entrava e pode ver o azul constante e ligeiro que tomava toda a abertura. Lembrou então de, quando ainda pequeno, era capaz de passar horas observando a lenta passagem das nuvens, observando a gradação do azul, do intenso azul dourado do meio dia, até o crepúsculo, tomado de tons roxos e violetas, entrecortado por raios de luz, chamuscado de detalhes avermelhados.

Poucas vezes teve tempo de passar toda a tarde deitado observando o transcorrer da luz que, tinha aprendido então, se devia ao silencioso girar da Terra. Nessa época, era apenas um anão, em um outro grupo de anões, que tinha um outro mestre, que por sua vez deve ter tido um outro mestre, que seguiu a um outro, e assim sucessivamente até a perda das origens talvez na própria origem do Tempo.

O azul estava claro, perfeito. Na floresta, tal intensidade convocava a dissonância de sons de pássaros e grilos, tornando tudo um conjunto compacto de zumbido, grasnar, canto e um farfalhar de asas mais adiante e toda multiplicidade sendo recomposta a partir do que ouvia. Mestre, pode nos ouvir? Sim, claro que sim. Feliz se aproximou sorrindo; Mestre o observava sentido as pupilas doloridas, seus olhos estiveram muito abertos, como congelados, olhando para fora da janela, arfava um pouco.

Ainda tímido, um borrão de branco adentrava o fundo azul como um pequeno traço de tinta que um pintor inadvertidamente tivesse derramado e, com um pincel, buscasse diluir sua presença em meio ao todo azul homogêneo, ou antes, o fundo branco que insistisse em aparecesse na tinta que – aguada – não pudesse cobrir todo aquele trecho da tela. Era a isso que podia comparar a presença daquele traço reto que se movia em câmera lenta da direita para a esquerda, seguida, agora sim, por um pequeno grupo de traços de nuvens que se enrolavam, rodando em torno do traço primeiro, como se o movimento daquelas outras nuvens fosse um movimento decorativo que não deveria atrapalhar seu objetivo de chegar à margem esquerda da janela.

Divisava nos flocos que apareciam uma série de formatos, uma maçã gigante que se estilhaçava, em seguida podia ver um cervo, em seguida uma cobra, um sorriso gigante formado pelo modo com o qual surgiam espaços vazios nas nuvens, preenchidos de azul.

Agora, um borrão de cumulus nimbus se espraiando com formato de bigorna tomando de assalto todo o céu que escureceu. Talvez fosse o sinal, o sinal derradeiro. A luz que banhava o cômodo se retirava, como seguindo a contradança de sua entrada, se recolhendo, não mais tocando a cozinha, saindo dos anões, contraindo até que a circunferência iluminada se fechava, até que a penumbra se adensava, tornando escuros todos os objetos e rostos daquele quarto.

Mestre, vamos acender os candelabros. Não, disse o Mestre. Não, deixa ela chegar como deve ser, pensou o Mestre sem dizê-lo. Dengoso, que fora até a cozinha, tinha pegado um candelabro em uma das mãos, enquanto na outra segurava uma caixinha de velas, acabou por voltar à cozinha decepcionado. O mestre notou que um pequeno buraco no conjunto das nuvens deixava passar um cone de raio solar, quase tangível, de existência intermitente, mas que agora se tornava constante.

Havia esperança, seja lá o que isso for. Seu corpo parecia seguir um estranho caminho que ia da dor à exaustão em segundos, enquanto se esforçava para disfarçar as contrações do rosto. O Mestre está sentido dor, pega as injeções!, Gritou Zangado. Não!, fez o Mestre com o braço estendido, sabia que era desnecessário, ela estava ali, ao contrário da luz; chegara ou sempre estivera à espreita.

Com os olhos, passou em revista os anões, que choravam baixinho, Feliz metia os olhos no chão, mas podia notar as lágrimas caindo de sua face. Nada-disso-necessário, disse como se fosse uma compressão de frases inteiras em um único vocábulo. Como um prédio antigo demolido por dentro, preservando a fachada, sentia a compressão dos órgãos uns contra os outros, não seria reconstruído, pouco a pouco seu corpo voltaria à terra, para nutrir a relva, as folhas, até restar a lápide, como signo de um afeto antigo que, no breve espaço de mais uma geração, vira nada. Até ser encontrado por um curioso, ou não ser encontrado, e ser esquecido de vez, como que sobre a rubrica de “antepassado”, se disfarçasse a ignorância e indiferença de quem realmente tivesse sido.

Sempre soube que aquele dia chegaria, mas por que afinal essa esperança absurda? O tremor das mãos revelava o medo, mas se sempre soube? Fechou os olhos, enquanto sentia um dos braços sendo segurado por um dos anões e a agulha entrando como picada na veia, um pouco menos de dor, um pouco menos de partida; ainda tinha alguns minutos, podia sentir esses últimos momentos. Mestre, o último ensinamento, pediram os olhos marejados de Feliz. Foi então que, erguendo o braço direito, moveu suavemente fazendo um círculo com a mão sem completá-lo. Como, Mestre?, perguntou atônito Atchim. O quê?

Era como se pudesse ver da sua mão um pincel desenhando um circulo em tinta negra, passando levemente da direita da esquerda, sem fechar, talvez quisessem que explicasse o que era aquilo, ou, como revelava o andar de lá pra cá de Atchim, acreditavam que o Mestre pedia alguma coisa. Nada disso, o caminho sem fechar, a tinta negra sem terminar o risco, tudo é só um risco, entendem? Santo Deus! Como posso deixá-los se vocês não entendem nada! As palavras seguiam vigorosas em sua mente ao contrário do corpo já consumido pelo frio das extremidades, permaneceu mudo.

Repetiu o gesto mais devagar, havia qualquer coisa de majestoso na cena. Simulou agora que segurava um pincel, rodando lentamente, fazendo um círculo no vazio, agora o detalhe: incompleto, irregular, imperfeito. Entendem? Perguntou com os olhos, ninguém parecia compreender. Passou em revista aqueles últimos dias, as últimas atenções que recebeu, cada um a seu jeito, os momentos de juventude, a infância, coisas muito remotas na memória pareciam brotar espontaneamente, um brinquedo, um detalhe de uma roupa, um desenho em um caderno quando contava talvez quatro ou cinco anos. Não faziam muito sentido, mas despontavam por si, como bolhas vindas à superfície do aquário. Isso também iria desaparecer, o carrinho de bebê, o colo da mãe, o caderno da escola, a mesa, o pinico, a fumaça da chaminé indicando o almoço quase pronto da mãe, a roupa sacudida ao vento, o soco no rosto de um colega da escola, era anão, mas não era idiota; a cintura da pequena Hiords, o sexo de Gigi, os sonhos a realizar, as ilusões, até mesmo o desejo partiria consigo.

Naquele instante, tudo parecia claro, desconfortável, porém claro. Nada estava fora do lugar! O que tinha que fazer era se livrar de todas aquelas imagens, ou melhor, deixá-las submergir por si só e desaparecerem, como se não fossem consigo, como se fossem um pequeno amontoado de lixo na frente de um transatlântico que continuaria singrando os mares, indiferente às condições do dia ou da noite, sempre em linha reta, e era só isso! Cada coisa seguindo seu curso, com dor ou sem ela, tomando a direção que deveria tomar, obedecendo à natureza intrínseca de sua… ai… de sua existência. Parecia óbvio que deveria desde o início ter pensado nessa direção. Bobagem pensar de modo diferente, concordou consigo. Atchim fechava as duas metades da janela, deixa aberta, pensou rapidamente, mas não tão rápido como Dengoso, que detinha a mão de Atchim, para em seguida abrir as “abas” de madeira. Do pequeno buraco nas nuvens, a luz retomava entre pequenos pedaços que surgiam de modo aleatório das nuvens que iam sendo picotadas, revelando de maneira surpreendente um azul tranquilo e por igual.

Por mais estranho que pareça, a luz não incomodava seus olhos, que se mantinham atentos ao quadrado perfeito azul quando outra nuvem entrou em cena, podia imaginar a sequência mental da nuvem, a chuva, o vapor, novamente nuvem, e todo o ciclo indo, e indo, até surgir o pensamento: Não há nuvem, não há chuva, sempre vindo a ser outra coisa, considerou consigo.

Olhou detidamente. Dois flocos de nuvens girando, em uma dança divertida, como que rodopiando em um salão infinito. Sem medo, sem começo, sem fim. Piscou duas vezes, sem notar os anões a seu lado, dois flocos de nuvens ligados formando um bloco compacto, quase uma mancha, foi a última imagem que viu.

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