6 O anão

Olívia Mendonça

Eu nunca fui de preconceitos com altura. Uma mulher de um metro e sessenta não costuma ter do que se queixar, é quase certo de que todos os homens serão mais altos do que ela. Por isso que me intriguei quando conheci o Anão. Coitado, a verdade é que ele não era anão mesmo, acho que tinha quase a minha altura. Mas, ainda assim, era mais baixo que eu e era assim que eu e minha amigas nos referíamos a ele, o Anão.

Eu e minhas amigas temos mania de apelidar os caras com quem saímos. Teve Nuno (que era parecido com Nuno Leal Maia), Fax, Taxi, Juventude, Douglas (não era o nome dele, piada interna)… Cada um tinha uma história por trás, um detalhe que fazia a alcunha fazer sentido e pegar. Assim, Eduardo virou o Anão. É claro que ele nunca soube desse apelido, até porque com certeza ele não acharia a menor graça. Nenhum cara gosta de ser chamado assim, parece que é um defeito, né? E não é exatamente um defeito, antes uma característica, uma referência social. Uma coisa que o destaca na multidão.

Eu conheci o Anão, desculpe, Eduardo, numa festa em que ele gentilmente me cedeu um beijo para eu despistar um sujeito chato que tinha cismado comigo. Ele se ofereceu para isso, que fique claro. Fiz uma análise rápida e pensei: por que não? Ah, o álcool… Diz que é ele o grande responsável pelas pessoas se pegarem desde que o mundo é mundo. Pois então, esse caso não foi diferente.

Maldito anão, tudo porque achei que ele era fofo. A fofice é terrível e pode ser o início de sentimentos fortíssimos. Os fofos têm o poder de despertar o sentimento mais profundo nas mulheres. O fofo cativa e tem carisma, duas armas pesadas que podem ser transformadas em amor se usadas de maneira correta. O fofo come pelas beiradas.

Aos poucos o Anão foi cavando seu espaço, conquistando meus amigos, família, e, quando notei, já estava completamente entregue. Não estava acostumada a níveis de fofura tão altos. Pensando bem, nenhum namorado jamais possuíra tal qualidade. Eles eram altos, é verdade, mas fofos, nunca. Aliás, pensando bem, anões são fofos.

A história até que evoluiu bem. Da festa, fomos tomar um chope, que se tornaram vários e um café da manhã. Foi no dia seguinte que eu notei o quanto ele fungava. “Alergia”, ele disse. Em seguida, vieram os espirros, intermináveis. Mas eu estava tão apaixonada que não me importava com esse detalhe.

Deus, como podemos ser cegos quando apaixonados! Mal sabia eu que no futuro estaria maldizendo um vidrinho de Sorine. O Sorine era seu melhor amigo, junto com o antialérgico e o lencinho kleenex. E tome espirro, tome fungação. E quando a gente brigava? Parece que aí mesmo que o troço engrenava e era só ladeira abaixo. Um anão com rinite. Esse era o meu namorado.

Mas tivemos fases boas, como eu disse, ele era um cara fofo, me tratava bem (ou pelo menos era o que eu enxergava), ríamos a beça (ou ria dele, não lembro). Só que as pessoas sempre podem nos surpreender e quando você iria imaginar que um sujeito que viveu três anos da sua vida do seu lado, dividindo seus segredos e medos, suas conquistas, que conhece toda a sua família e seus defeitos, vai aprontar uma dessas? Você não dá nada pelo sujeito, achando que ele assim, tão pequenininho, vai ser inofensivo. Vai vendo…

Vou contar como foi: a gente começou descendo a ladeira e terminou fazendo desfile. Uma beleza.

Um dia resolvemos fazer uma festinha em casa. A relação já estava de mal a pior, com briguinhas bobas que se tornavam discussões enormes sobre se deveríamos ou não casar, se deveríamos ou não ter filhos ou simplesmente se deveríamos ou não parar de fumar, comprar manteiga ou uma bicicleta.

Nessa época, estávamos os dois bebendo muito, que é o que se faz quando não se sabe lidar com um problema e se precisa arrumar um motivo para brigar. A festinha até que correu bem, nós nem nos esbarramos muito ao longo da noite e quando todos foram embora, resolvemos sentar no sofá e fumar o último cigarro contemplando a zona do apartamento.

E foi nesse momento, às 4h45 da manhã, que eu fiz a fatídica pergunta: “Você ainda me ama? Acha que devemos continuar juntos e tentando?”. No que ele respondeu com a frase mais surreal que eu já ouvi na vida: “Acho que nós deveríamos cuidar de nossas barrigas”.

Assim, do nada, como se ele tivesse acabado de dar explicação mais sensata do mundo. Muito maduro.

Diante da minha expressão incrédula, ele continuou na maior tranquilidade: “Sim, foi o que eu disse, nós devemos cuidar das nossas barrigas. Desde que estamos juntos, a minha barriga cresceu, a sua também, e acho que esse é o momento de cuidarmos de nossas barrigas”. Plaft! Na cara e com dor.

Nem o nosso querido ex-presidente faria uma analogia tão brilhante. E foi assim, falando que minha barriga estava escrota, ele me deu o maior fora que eu já levei na vida. Um fora de um anão que funga e espirra de cinco em cinco minutos.

Bom, a situação já seria péssima fosse só isso, mas o troço piora.

Como toda mulher que leva um pé na bunda do homem que ama, comi o pão que o diabo amassou. Na verdade, bebi a cachaça que o diabo serviu. A primeira semana foi a pior, não dormia, não comia, só chorava.

Duas coisas não me deixavam em paz: a primeira era a história da barriga. Que merda de desculpa é essa?! Ele se recusava a conversar comigo, explicar direito o que tinha acontecido, porque tinha parado de me amar, porque não eu. Por quê?! A segunda questão era mais egoísta, diretamente ligada ao meu orgulho ferido: “Porra, ser dispensada por um anão?! Na boa, eu estava tão dispensável assim? Tô muito feia? Minha barriga está tão grande assim? Será que se eu cuidar direitinho dela, ele me aceitará de novo?”

Com todos esses questionamentos na cabeça, ia afogar minhas mágoas alugando um amigo por vez para ouvir meus lamentos e me dizer que eu era linda, inteligente, maravilhosa, que o Eduardo era um ingrato que não soube me valorizar etc etc etc.

Um dia, liguei para a Claudia, grande e antiga amiga que, desde que a história com o Eduardo começara a dar defeito, andava meio sumida. Parece que tinha recebido uma promoção e estava trabalhando como louca. Pelo menos era isso que ela alegava para justificar as constantes ausências. Uma noite eu estava bebendo com uns amigos do lado da casa dela e resolvi dar uma passada lá. Não era muito tarde e era sexta-feira, dia que as pessoas dormem mais tarde mesmo.

Ela pareceu surpresa quando toquei o interfone, claro, ninguém mais simplesmente toca o interfone das pessoas hoje em dia. Só em novela, quando as pessoas são surpreendidas por visitas inesperadas. Mas eu fiz isso, tava alegrinha e me achei super dentro de um seriado por fazer isso. “Ser espontânea, é isso que falta no nosso mundo hoje, espontaneidade”, pensei.

A Claudia abriu a porta com uma expressão estranha, meio de pijama, meio com cara de quem já estava na cama e com cara de quem não estava a fim de conversar. Mas, com algumas taças de vinho na conta, saí falando.

— Poxa, amiga, quanto tempo! Já estava dormindo? Não acredito! Você está muito sumida, estou com saudades. Você soube do Eduardo, né? Aquele anão filho da puta me deu o pé na bunda!? E você soube como ele fez isso? Você sabe o que me disse?

Nesse momento escuto uns barulhos vindos do quarto de Claudia. Na hora me dei conta de que ela não estava sozinha e fiquei sem graça de atrapalhar. Mas aí comecei a achar aqueles barulhos familiares: uns fungados, uns espirros. Será que estava ficando paranoica? Não era possível. “Estou louca ou a porra do Eduardo está lá dentro do quarto com a filha da puta da minha amiga?!”

Fiquei cega, via tudo preto, saí como uma bala pelo apartamento direto para o quarto e entrei bem a tempo de flagrar aquele infeliz com seu vidrinho de Sorine na mão pronto para aliviar sua interminável fungaçào. Claro, ele estava nervoso, e é aí que a alergia come solta.

Quando abri a porta, ele se virou para mim como qualquer cachorro que é pego fazendo merda, me encarou com a expressão mais coitada que conseguiu forjar e começou a chorar.

Naquele momento, vendo aquele merdinha tão pequenininho chorando e fungando e espirrando de uma maneira quase cômica, tive uma epifania. E senti pena, muita pena. Pena dele, por ser um merda, mas, principalmente, pena de mim, que, por puro medo de ficar sozinha, acabei me apaixonando por um pedaço de homem (com trocadilho, por favor) como ele. Um cara que não tinha nada demais, era quase chato, só falava coisas sem sentido e que achava que sua suposta simpatia o tornava o cara mais cobiçado do camping.

Estava tentando processar todos os pensamentos que fervilhavam no cérebro ao mesmo tempo (tipo aquela história da sua vida passar como um flash por sua cabeça quando você está prestes a morrer), quando a Claudia entrou no quarto. Ela chegou com cara de pânico, já querendo se explicar, mas eu não consegui deixá-la falar e simplesmente comecei a rir. Era um riso maluco, uma gargalhada meio histérica, dessas que a gente não controla e acaba até perdendo o fôlego.

Os dois se olharam como se eu estivesse à beira de um colapso e tenho certeza que pensaram que o choque tinha sido demais para mim.

— Claudia — consegui balbuciar enquanto minha respiração voltava ao normal, — olha como somos ridículas. Você não vê? Você é uma mulher incrível. Você está com tanto medo assim de ficar só? Olha para esse anão, ele é ridículo. Ele te contou o que me disse quando terminamos? Qual foi a desculpa que usou? Ele é do tipo de cara que faz a piadinha ‘é pavê ou pra comê?’ na mesa. Ele é do tipo que quando você diz ‘eu te amo’ ele vai responder ‘eu também… me amo’. Do tipo de cara que acha isso super engraçado. A gente não gosta de homem assim, lembra? Porra, Claudia, eu acabei de me tocar de tudo isso! De como fiquei com ele, achando que de repente tinha encontrado o cara certo, para me dar conta agora de que ele nunca foi esse cara. Eu sei que você também não o acha incrível. Você tem um metro e setenta e dois! Amiga, você pode mais!

Enquanto eu falava todas aquelas coisas, e eu falava sem parar, como se não pudesse impedir que as palavras saíssem da minha boca, minha amiga ia mudando a expressão. Primeiro, rolaram lágrimas, mas ela também começou a esboçar um sorriso e, como se também estivesse caindo na real, desatou a falar:

— Eu achei horrível a história da barriga, mas na hora que ele me contou, eu ri. Acho que para agradá-lo, mas quando percebi que ele realmente só se referiu à sua barriga e não à dele – que não é nada digna de nota — fiquei chateada. Até porque a minha também não é lá essas coisas, sabe? E, poxa, como ser essa mulher incrível, mega gostosa, já nos trinta e muitos, e ainda trabalhar, e ser bem sucedida, e ver os amigos, e ler, e ver filmes, e ser boa namorada? Tá muito puxado mesmo. E o Eduardo sempre me dizia que era perfeitamente possível ser 100%, mas que a maioria das mulheres eram preguiçosas para isso, acredita?! Logo vindo de quem! Um sujeito que joga futebol uma vez por semana e olhe lá.

— E eu não sei? Namorei esse anão três anos. Ele se acha muito maior do que é. Literalmente. Sempre querendo me diminuir em todos os aspectos. Enchia a boca para dizer que eu tinha um metro e cinquenta e nove de altura e ele, um e sessenta e dois. É ruim, hein?! Até parece que eu não sei a minha altura. Sem falar que tive de ficar sem usar salto esse tempo todo, sem o menor glamour. Definitivamente, não dá para estar com alguém que não quer te ver feliz.

— Você tem toda a razão! Eu não sei o que deu em mim caindo na conversa dele. Mas é que via você feliz com ele, pelo menos no início. E depois, todos os meus amigos estão sempre tão ocupados com seus pares, filhos, que comecei a querer desesperadamente ter alguém também, mesmo que esse cara fosse o ex “não tão bom assim” da minha amiga… Ele me pegou desprevenida, carente.

— Peraí! “Não tão bom assim”?! Mas o que é isso? Vocês esqueceram de que eu estou aqui também? Que eu existo?!

Eduardo estava aos berros, em pé em cima da cama, tentando controlar uma série matadora de espirros. Mas seu apelo só fez aumentar ainda mais nossa indignação de mulheres trintonas, quase bem resolvidas, que sofrem altas doses de pressão nesse universo sexista que nos faz acreditar que não somos nada se não tivermos um exemplar do sexo masculino a tiracolo. Mesmo que esse sujeito seja um canalha de quinta, que te faça sentir-se inferior, que se ache a bala que matou Kennedy de tão importante, um espécime quase raro num manancial de mulheres loucas e solteiras.

Por que no fim é isso mesmo, né? A propaganda da cerveja com a mulher gostosa, a Angelina Jolie com aquela boca, aquele corpo, aquele marido e uma penca de filhos; a porra do relógio biológico e a merda da síndrome de Peter Pan que faz os homens acharem que têm 20 anos para sempre. E aqui me desculpe se coloco tudo no mesmo saco, mas você há de convir que descobrir que perdeu três anos da sua vida com um cara ridículo e que foi traída pela sua amiga só porque ela está tão assustada quanto você faz a gente pensar em monte de coisas.

— Esse mundo está cão mesmo, Claudinha. As mulheres estão tão descontroladas que estão furando olho até da própria mãe se duvidar. A classe anda desunida.

— Gente come gente. E pensar que eu caí no conto do Eduardo. Não vale o que come. Ele me disse que te deu o fora porque você queria fazer greve de sexo caso ele não quisesse ter filhos.

— Mentiroso e burro. Até onde eu sei é preciso fazer muito sexo para engravidar. Óbvio que eu não iria fazer isso, primeiro porque eu gosto de sexo (e olha que com ele nem era lá essas coisas), segundo que seria bem mais fácil furar a camisinha caso eu quisesse fazer filhos a qualquer preço. Odeio gente burra. Tô pegando um ódio dele, menina…

Simplesmente discutíamos e ríamos dos defeitos de Eduardo como se ele não estivesse lá. E quando me dei conta e olhei em volta, não o encontrei mesmo. Aparentemente, ele saiu depois de tentar em vão se explicar, e nunca mais deu as caras. Não que eu fosse procurar, mas ele simplesmente desapareceu, não tive mais notícias mesmo.

Nem preciso dizer que o episódio virou um clássico instantâneo. Entre meus amigos, o Anão virou um personagem recorrente, quase lendário, sempre presente nas mesas de bar. Eu e a Claudinha passamos alguns meses contando o causo para as pessoas em meio a muitas risadas e chopes, e a vida seguiu seu curso normal.

Depois de um tempo de intensa parceria, Claudinha deu uma sumida. Até que ligou para dizer que estava namorando e justificar sua ausência. Fiquei feliz, não é como se estivéssemos numa brigada contra o sexo masculino, só andávamos um pouco desiludidas, mas sempre prontas para viver uma aventura que valesse a pena. E se ela estava numa, ótimo.

Uma tarde de sábado qualquer, cheia de saudades da Claudia e com vontade de botar o papo em dia, liguei para ela. O telefone não demorou muito tocando e quando ela disse “alô”, ouvi um espirro ao fundo.

 

 

 

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